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Solidariedade anônima


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Elas não estão nas páginas da imprensa, nem nas chamadas dos telejornais. Não andam rodeadas de jornalistas, nem dos flashes dos fotógrafos. Não aparecem. Nos jargões jornalísticos, se poderia dizer que “não são notícia”. Mas são a alma de inumeráveis gestos heróicos e anônimos que acontecem diariamente nos cantos sombrios da grande cidade. São “Marias”: mulheres comuns, ocultas, sem dotes extraordinários. Figuras próximas à nossa realidade, e talvez por isso, tão atraentes.

Quem já ouviu falar, por exemplo, da dona Lourdes, moradora do Jardim Princesa, na Zona Norte da Capital paulista? Ela nunca foi manchete nos jornais e jamais concedeu entrevistas à televisão. Talvez porque não houvesse tempo para pensar nisso quando se tem aos cuidados mais de 300 crianças carentes. Ajudada por um programa do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, órgão vinculado à Casa Civil do Governo do Estado e dirigido pela primeira-dama, ela montou uma cozinha de pães artesanais. Gerou empregos e renda a um grupo de moradores locais. Mas sua iniciativa não parou por aí. Treinada por técnicos da Secretaria de Agricultura, ela converteu-se numa “agente multiplicadora”: passou a instruir membros de sua comunidade a desempenhar a mesma tarefa, incluindo noções de alimentação, saúde e higiene. Sua iniciativa permitiu que fossem erguidas duas creches e um centro comunitário, que serve de oficina de treinamento na arte de elaborar pães caseiros. Tudo isso sem espetáculo ou marketing artificial.

Enquanto isso, no outro extremo da cidade, dona Duda exerce papel similar na favela Ayrton Senna. Para receber o kit do programa “Padaria Artesanal”, ela reuniu recursos próprios para a construção de um espaço adequado. Lá, ela mistura os ingredientes necessários para a elaboração dos alimentos: dignidade, auto-estima, esperança. Indo mais além, dona Duda comanda um programa de inclusão social junto a dependentes químicos. Como explicar a força que move mulheres como essas? O segredo é uma surpreendente combinação de capacidade de sonhar e de um forte realismo nas suas soluções. Olhando ao nosso redor, é fácil identificar “Marias” ocultas, anônimas, como dona Lourdes e dona Duda.

Nomeio, sem medo de errar, uma delas, que por acaso, também se chama Maria: a primeira-dama do Estado, Maria Lúcia Alckmin. No comando do Fussesp, Lu Alckmin, como é conhecida, dirige esse batalhão de quase 2 mil mulheres que exercem liderança em suas comunidades, a maioria delas na Capital. Sua atuação não se restringe às quatro paredes do Palácio dos Bandeirantes. Ao contrário, o normal é vê-la na linha de frente no combate à miséria e à exclusão. Em contato direto com as “agentes multiplicadoras”, dona Lu oferece o seu apoio, sua atenção, seu interesse pelo andamento das atividades. Está presente nas favelas e nas creches comunitárias. Conversa e estimula as donas-de-casa, as agentes comunitárias e as trabalhadoras pobres. Vai até onde a imprensa não costuma ir.

Eu a encontrei, recentemente, numa favela imensa de uma das regiões mais violentas da Capital: o Jardim Monte Alegre, em Parelheiros, Zona Sul de São Paulo. Foi conhecer de perto o trabalho desenvolvido pela Futurong - Ação-Sócio-Cultural. A entidade, armada de grande realismo, está instalada no coração da favela. Sua sede é uma casa da favela. É comovente ver a transformação que se opera naquele ambiente que desconhecia a esperança e a solidariedade. “Quando você capacita uma pessoa, você transforma o ambiente”, dizia-me Lu Alckmin ao olhar emocionada para aquele espetáculo de resgate da dignidade humana. Seu mote é claro e direto: “Melhor do que dar é ensinar a fazer”. Assim pensam essas mulheres empreendedoras, que atuam como verdadeiras transformadoras da sociedade. Elas não são antinada. Talvez por isso, todos, independentemente de ideologias e partidarismos, se sentem estimulados a apoiar o trabalho dessas mulheres que fizeram da caridade encarnada a razão de ser das suas vidas.

O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do master em jornalismo para editores e professor de ética jornalística, é diretor para o Brasil de Mediacción - Consultores em Direção Estratégica de Mídia - Universidade de Navarra.

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