A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) confirmou ontem mais um caso de leishmaniose visceral humana em Bauru. Trata-se de uma criança de 1 ano, moradora do Parque Jaraguá, que elevou para dez o total de casos registrados neste ano. Como em 2003 outras 15 notificações foram feitas, no total 25 pessoas apresentaram a doença na cidade, sendo que 13 têm menos de 12 anos. Duas pessoas morreram vítimas da doença.
As crianças representam 52% das vítimas da leishmaniose porque ainda não dispõem de um sistema imunológico plenamente desenvolvido para combater o protozoário, que atinge preferencialmente o fígado, o baço, os gânglios e a medula óssea. Ele provoca processo infeccioso e anemia, que pode reduzir as chances de vida do paciente.
A criança de um ano está internada em estado grave na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Estadual (HE) de Bauru Arnaldo Prado Curvêllo. Ele tem outros oito irmãos, fora o 9.º que ainda vai nascer.
“As crianças ficam mais expostas (ao mosquito). Elas não são como os adultos que podem matar o mosquito”, reitera o diretor do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) de Araçatuba, Sérgio Irikura, sem precisar quantas foram afetadas. A cidade, que fica a 200 quilômetros de Bauru, vive uma epidemia da doença desde 1999, mas atualmente está empatada com Bauru no ranking das cidades com maior número de registros.
O penúltimo caso notificado em Bauru foi de uma mulher de 27 anos, que por estar grávida teve uma diminuição na atividade de imunidade celular (para não rejeitar o feto).
Sistema imunológico
Como a manifestação da leishmaniose está relacionada diretamente ao sistema imunológico, nem todos os infectados apresentam a doença. “Quem tiver a pior integridade imunológica vai desenvolvê-la”, informa o infectologista Fernando Monti, que integra a equipe do HE responsável pelo tratamento dos pacientes com leishmaniose. Passaram por ele cerca de dez casos.
De acordo com o infectologista, a fragilidade deste sistema pode decorrer de vários fatores que vão desde característica genética até a presença de uma outra doença debilitante (como câncer ou aids, por exemplo).
“Se nós soubéssemos todos os fatores envolvidos criaríamos formas de intervir no processo para que a doença não se desenvolvesse. A ciência está desvendando o sistema imunológico agora”, diz Monti, ao informar da dificuldade em apresentar estatísticas relacionando a quantidade de pessoas infectadas com as que apresentaram os sintomas da leishmaniose.
“Ficaria muito caro fazer a sorologia da cidade. Além disso, a pessoa fica tão estressada (com a possibilidade de ter sido infectada pela doença), que a imunidade cai e a doença se manifesta”, explica Sérgio Irikura.
A sorologia é um exame realizado a partir da coleta de sangue, que verificar se a pessoa apresenta anticorpos contra a leishmaniose. Em caso afirmativo, ela foi infectada, mas pode não manifestar a doença.
A desnutrição é um dos fatores que ajudar a desencadear os sintomas. Tanto que dentre as medidas para combater a leishmaniose, o DSC de Araçatuba firmou uma parceria com a Pastoral da Criança da Igreja Católica para distribuir farinha enriquecida com ferro para crianças com menos de 5 anos com peso e altura inferior às normais.
Em Bauru, a SMS promoveu ontem um encontro de aprimoramento com a coordenação da área de nutrição e divisão sanitária, além dos profissionais de assistência social para elaborar um protocolo de acompanhamento social dos portadores da doença.
Todos os avaliados por Monti apresentaram exames compatíveis com a desnutrição. No entanto, o problema nem sempre antecede a manifestação dos sintomas porque a própria doença desnutre por demandar gasto energético elevado (para combatê-la) e por provocar falta de apetite, por exemplo, pondera o infectologista.