A estratégia que o presidente Lula começou a desenvolver a partir de São Paulo, com ajuda a sua candidata, a prefeita Marta Suplicy, vem contrariar a orientação do próprio PT, que já deu sinais de não desejar a federalização da campanha. O fato é que Lula confia bastante no desempenho de seu governo, apostando fichas na vitalidade da economia e suas conseqüências nas eleições. Trata-se de exagero de confiança. Não haverá tempo, até outubro, para extrair da economia milhares de empregos, melhores salários e mais felicidade (...)
Dentro da pele impermeável que já não sente os beliscões da queda de prestígio e a saturação de recorrente messianismo, questionado até por antigos aliados de correntes progressistas da Igreja de Roma, Lula não consegue fazer distinção entre projetos de partidos, legitimidade no uso da máquina administrativa em favor de candidatos e ética na conduta presidencial. Para a viabilização do projeto hegemônico do PT, o “vale-tudo” teria de preservar, no mínimo, a condição representada pelo cargo de presidente da República, que expressa a capacidade de ser justo com todos. Se até pode ser legítimo o mandatário do País trabalhar por candidatos que lhe são mais chegados, não será ético fazer campanha para eles.
Se o presidente da República é o primeiro a quebrar o contrato ético com a sociedade, pelo qual sua figura deve estar eqüidistante de candidaturas, o que se pode esperar é um descalabro nos andares mais baixos do edifício político. Partidos e candidatos romperão a cerca das regras do jogo eleitoral (...)
Sabemos, ainda, que ao apoio dos donos dos poderes mais altos se soma uma pletora de poderes mais baixos, a começar pelo uso do aparelho das administrações municipais. A lei 9.840/97, primeira iniciativa popular da história do País, objeto de coleta de mais de 1 milhão de assinaturas entre os anos 1998 e 1999, pune com perda de registro ou do diploma quem for descoberto comprando votos ou usando mecanismos governamentais. Ocorre que sua aplicação depende da interpretação de cada juiz. Infelizmente, não há no País o mínimo consenso sobre o que é possível ou não fazer, por exemplo, neste período de pré-campanha, vendo-se que em cidades como São Paulo a propaganda é farta para mostrar feitos administrativos. Em muitos municípios, juízes proíbem propaganda governamental, mesmo que esteja amparada em lei.
Não se pode dizer que tudo esteja às cegas. A lei 9.840 já cassou em Sobral (CE) um candidato a vereador que oferecia moldagem de dentaduras em troca de voto. Em Presidente Wenceslau (SP), outro candidato foi cassado porque doava uma calculadora ao “aluno-eleitor”, depois, é claro, de “ensiná-lo” a “votar bem”. Por todo o País, kits de materiais de construção, cestas básicas e equipamentos domésticos entrarão nos lares de milhões de famílias, muitas carentes. Mas não é isso mesmo que faz o presidente da República quando dá o braço amigo a candidatos de sua estima? Foi por acaso que o maior número das tais farmácias populares entrou em espaços administrados por petistas? Até o final do mês passado, dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do governo federal mostravam que prefeituras do PT receberam, em média, R$ 961 milhões, como fruto de convênios com a União, enquanto as controladas por partidos de oposição ganharam R$ 168 milhões e as dos demais partidos da base governista, cerca de R$ 148 milhões. É a máquina em ação ou maquiavélica maquinação.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político.