Em 1904, em junho ou julho, aparece o romance Esaú e Jacó, penúltimo de Machado de Assis. Livro escrito não mais “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia” como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 16 anos antes, mas um livro escrito por um ancião cansado e um tanto deprimido por mais de ano de luta de sua querida Carolina contra pertinaz doença que a levaria à morte, ainda naquele mesmo ano, precisamente, no dia 20 de outubro.
Esaú e Jacó completa neste ano de 2004 um centenário. É mais um dos seus romances a completar cem anos, aliás neste mesmo 2004 mais dois centenários referentes a Machado de Assis: o da morte de Carolina e o da sua admissão como membro correspondente à Real Academia das Ciências de Lisboa. Esse romance, o penúltimo que publicou, é um verdadeiro tratado de cultura geral. Na caracterização dos gêmeos Pedro e Paulo, além de conhecimento bíblico já demonstrado em outros textos, Machado, que a essa altura da vida estudava grego, mostra conhecer a Ilíada e a Odisséia de Homero.
Com respeito a Paulo, a certa altura, diz: musa canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta aos gregos quem precipitou à estância de Plutão tantas almas válidas” (Ilíada).
Com respeito a Pedro: “musa canta aquele herói astuto que errou por tantos tempos depois de destruída a santa Ilion” (Odisséia).
Por outro lado, a indecisão de Flora entre Pedro e Paulo, sem dúvida parece refletir a indecisão filosófica do próprio Machado de Assis, já manifestada em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba e que vai aparecer ainda em Memorial de Aires, na figura do conselheiro Aires.
Magnífica é a passagem da morte de Flora: “Flora acabou como uma dessas tardes rápidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto quando lhe fecharam os olhos era menos de defunta que de escultura. As janelas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu”, morre sem se decidir por Pedro ou Paulo.
José Benedicto Pinto - RG 440349