Numa única quadra da avenida Rodrigues Alves é possível encontrar três brechós. Um deles está vendendo todo seu estoque a R$ 1,00. Se andar mais um pouco, encontra-se outro; na quadra seguinte, mais um. E, na manhã de ontem, nenhum deles estava vazio. A alternativa para comprar roupas e calçados usados a um preço pequeno vem sendo adotada cada vez mais em Bauru.
Segundo proprietários e vendedores, o público consumidor não é formado apenas por pessoas que não têm condições para comprar todo o guarda-roupa numa loja de moda ou magazine. Pessoas mais abastadas procuram raridades, a moçada que faz um estilo hippie encontra peças estilosas, quem vai a um casamento “garimpa” sandálias e sapatos prateados e dourados e até vestido de noiva.
“De um casamento a uma festa junina, um brechó tem de tudo. De roupa de bebê, a bijuteria, com direito a vestiário, água no calor, balinha no inverno e até aromatização de ambiente”, comenta Silene Gimenez, que há seis anos é dona de brechó.
Ela e o marido, Amilton João Gimenes, tiveram bar por 20 anos e se cansaram da vida sem horários e finais de semana, mas como sempre gostaram do comércio, resolveram trabalhar com roupas usadas.
O casal explica que a regra da compra é a peça estar em perfeito estado, quanto mais nova, melhor será seu valor.
Uma calça pode variar para o consumidor final de R$ 3,00 a R$ 12,00, uma camisa de R$ 1,00 a R$ 6,00, um vestido sai de R$ 3,50 a R$ 6,00. Uma peça cara e de festa em brechó pode custar em média R$ 25,00.
Mas uma peça nova como um casaco fino pode chegar a R$ 50,00.
O preço para quem vende as peças para o brechó é geralmente metade do preço final.
Silene conta que tem fornecedores fiéis que a cada estação renovam o guarda-roupa e mandam tudo para venda.
As irmãs Irene e Maria Luiza Francisco da Silva movimentam a loja das filhas e se especializaram em comprar sapatos com pouco uso e peças de ponta de estoque ou de lojas que vão fechar. “Acabamos conseguindo um preço melhor e peças na moda.”
Entretanto, Luiza anunciava em sua loja que precisava de roupas de inverno. “Este ano, as pessoas não vieram vender muita coisa não. As roupas juninas também acho que acabaram reformando.”
A vendedora Lígia da Silva Requena, 35 anos, que trabalha num brechó em frente a um ponto de ônibus, conta que, com as mudanças bruscas de temperatura, muita gente que está indo ou vindo do trabalho ou tem compromissos no Centro, acaba parando e trocando de roupa com uma compra de uma peça usada. “Quanta gente sai daqui com um casaco de frio ou blusinha de calor, resolvendo o problema e gastando menos que um passe de circular”, revela.
Mesmo com preços em torno de R$ 3,00 por peça, tem cliente que chega até a levar R$ 50,00 em roupas numa única compra. Em alguns casos, as vendedoras apontam que já efetuaram vendas de até R$ 120,00, com as pessoas saindo das lojas com sacolas cheias.
Pérolas
Na manhã de ontem, um grupo de cinco mulheres de uma mesma família investigava cada arara de um brechó no Centro da cidade em busca de “peças preciosas”. Elas tinham um mesmo compromisso: uma festa junina brega realizada há seis anos por colegas de trabalho de um instituto de enfermagem.
A secretária Rosilene Brandão Braga, enquanto acompanhava a mãe, a avó e a cunhada, contou que sua roupa já estava lavada. Ela já tinha escolhido seu modelito no brechó e pago R$ 10,00 pelo look da festa.
Cunhada de Rosilene, Dayane Martins Moura, que participaria da festa pela primeira vez, provava um vestido, com ares de debutante, que serviu como uma luva. Apesar do modelo ultrapassado, era novinho, de bom tecido e muito bem costurado.
“Fazemos essa festa todo ano e os rapazes também fazem compras aqui. Depois, alguns deles acabam usando as camisas durante o ano todo.”
Outro fato interessante que ocorre nos brechós são as paixões e brigas por determinada peça. Silene e Amilton dizem que já tiveram que bancar juízes em várias situações. Numa delas, uma freguesa idosa gostou de uma blusa e avisou que comeria um salgado antes de comprá-la. Quando voltou, uma moça estava encantada pela peça, mas, como a senhora já tinha uma certa idade, acabou cedendo.
“Eu mesmo acabo não resistindo a algumas peças. A blusa que estou usando foi amor à primeira-vista”, confidencia a dona do brechó.