Ser

Cultura caipira ganha nova conotação

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

A assistente social Sandra Macedo Pereira, 45 anos, nasceu em Manaus, no Amazonas, e passou a vida envolvida com as festas populares. Ela casou-se, veio para Bauru e teve a sorte de morar numa rua, a Manoel Bento Cruz, que é tida na cidade como tradicionalmente festeira.

“São 12 anos de festa em que todo mundo colabora. Como pesquiso cultura e folclore, fazemos questão de preservar danças, quadrilha, ciranda, danças de fita e de tronco. Minhas filhas dançam catira e fico feliz com esse crescimento das festas, as pessoas precisam valorizar as tradições mesmo que de maneira moderna. Voltei a ouvir, até mesmo durante o dia, o som de bombinhas e chuva de prata”, comemora.

Ela conta que uma das filhas, quando entrou na adolescência, tinha vergonha de integrar o grupo de catira e vivia reclamando que os colegas tiravam sarro na escola. Hoje ela está terminando o colegial, tem 17 anos e suas amigas acham “chique” o fato dela participar do grupo.

O violeiro e diretor do Grupo Caçula de Catira, Toninho Domingues, também concorda que a dança popular está sendo vista com outros olhos. O grupo, que começou com 12 integrantes em menos de três anos, tem 29 alunos na turma de catira, que ensaia no Centro Cultural.

No ano passado foram mais de 100 apresentações. Em 2004, foram sete apresentações só na “Estação Café”, do Sesc, que reúne a cada ano uma temática cultural diferente em suas festas de duas semanas.

“Este ano tivemos que dispensar eventos, tinha dia que tinha mais de cinco festas. Nós chegamos a fazer missa de manhã e catira à tarde e à noite. Logo, logo vou precisar de um preparador físico, pois parte da minha turma já passou dos 60”, diverte-se.

Globalização

Para o professor de antropologia e cultura popular do departamento de ciências humanas da Unesp de Bauru, Claudio Bertolli Filho, o Interior está passando por um fluxo e refluxo das suas expressões e do folclore.

Com o processo de globalização, as identidades culturais foram colocadas em cheque, já que a modernização sugere uma homogeneização.

“Eu sou um cidadão de determinado lugar, mas sou um cidadão do mundo. Mas vou me ofender se falarem mal da minha terra. Porque a nossa identidade é nossa raiz e não gostamos de vê-la maltratada. Então, esse processo de globalização, de certa forma, tem feito as comunidades reverem sua cultura.”

Por outro lado, esta revisão não traz um resgate. Segundo Bertolli, algumas coisas são iguais, mas o significado é diferente. Hoje, por exemplo, não se vê criança soltando rojão e balão, pois já se adquiriu uma cultura de segurança e preservação do meio ambiente. Em alguns lugares, se colocou em prática novamente a brincadeira da toca do coelho, para que se tenha contato com os pequenos animais.

É esse o aspecto que justifica a retomada da catira, do café tropeiro e de outras manifestações e o que não impede que outros elementos sejam acrescidos à festa.

Sob a ótica humanista, a angústia do homem em viver sozinho faz com que ele busque a confraternização e as festas juninas proporcionam, segundo o professor, “o viver o outro sem preconceitos”.

Para os mais tímidos dentro de um grupo, a caracterização pode até servir como disfarce ou escudo. Para outros, a dança da quadrilha pode relembrar um baile de máscaras de Carnaval, que perdeu sua característica com o passar do tempo.

____________________

O maior São João do mundo

Todos os anos, no mês de junho, Campina Grande, na Paraíba, vive o clima de São João. São 30 dias de forró autêntico. A cidade fica tomada de turistas que chegam de todas as partes do Brasil e do mundo. Afinal, depois do Carnaval, as atrações juninas do Norte e Nordeste, que envolvem inclusive o Festival de Parintins, já são o segundo roteiro mais procurado pelos estrangeiros.

A festa de Campina Grande é conhecida como “O maior São João do Mundo” e é realizada numa área central da cidade chamada de Parque do Povo, que compreende 42,5 mil m2 de área aberta, de corada com bandeirolas e fogueiras, onde em 30 dias, os forrozeiros podem dançar 500 horas do mais autêntico “forró pé de serra”.

A cultura popular do Nordeste se faz presente nas formas arquitetônicas da casa de moradia dos sitiantes, na bodega, na capela, na casa de farinha e no depósito de mangai, ou nos hábitos de uma comunidade rural, inclusive na maneira de cozinhar e dormir.

Como nos velhos tempos, o local tenta retratar o comércio de artesanato e de venda de farinha de algodão. As peças de artesanato comercializadas no local, são confeccionadas a partir da mais diversificada matéria prima, como madeira, estopa, bucha vegetal, sisal, barro, couro ou tecido.

No Parque do Povo também estão instaladas muitas barracas, onde a culinária nordestina não é esquecida. São mais de 200 barracas, pavilhões e quiosques onde é possível apreciar pratos típicos tais como buchada de bode, cuscuz com carne guisada, pamonha, pé-de-moleque, delícia de macaxeira, tapioca, curau, bolo de milho etc.

Identidades sociais

Nas festas nordestinas de São João, cada barraca é identificada por um nome e se torna um ponto de referência dentro daquele universo. Cada uma delas revela uma tendência de procura por afinidade e através do nome agrega determinado tipo de público. Pois ela é, ao mesmo tempo, um espaço mediador que estabelece as diferenciações entre o processo de individuação e a massa, o “povo”, a “gente” e as pessoas.

Segundo o antropólogo Roberto Da Matta, autor entre outros livros de “A Rua e a Casa”, a noção de indivíduo e pessoa não são noções dissociadas entre si. Ao contrário, elas convivem em vários graus em todas as sociedades. O autor afirma que no Brasil temos uma sociedade que se diz igualitária, mas que, de fato, é profundamente hierarquizada. Assim, no sistema de pessoas “todos se conhecem, se respeitam e nunca ultrapassam seus limites. Todos conhecem seus lugares e ali ficam satisfeitos”. Nesta esfera todos são “gente” e trocam solidariedade e um tratamento diferenciado.

No entanto, na festa, estes sistemas podem sofrer uma inversão. As pessoas tornam-se indivíduos, à medida que participam do evento, aceitam suas regras gerais (de folia e de brincadeira), tornando-se anônimas. O mesmo pode ocorrer com o indivíduo que de anônimo pode tornar-se “pessoa conhecida, solidária, dotada de personalidade e expressividade”

Nesse processo de inversão, no São João, as barracas possuem um papel fundamental, pois funcionam, não apenas como um ponto de encontro, de referência espacial implícita a pessoas, mas resgatam uma referência sócio-cultural-econômica dos indivíduos e suas preferências.

O povo brasileiro, além de multiétnico, é pluricultural, desde os primeiros tempos. Não havia, como não há atualmente, uma única cultura branca, outra negra e outra indígena. Brancos, negros e índios diferiam uns dos outros, e cada um desses grupos tinha suas diferenças internas.

Nas festas populares, ocorre o que Da Matta apelida de “fábula das três raças”, que procura apagar essas e outras diferenças, reduzindo-as a um punhado de “contribuições de cada raça”, das quais se teriam originado as “qualidades do povo brasileiro”.

Comentários

Comentários