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Metamorfoses da esquerda


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A expressão é forte. Mais radical do que mudança ou transformação. Metamorfose é transformação de seres em outros seres. Surpreender metamorfoses da esquerda não é fácil. Por que, tendo chegado ao poder, o Partido dos Trabalhadores, que é reconhecidamente de esquerda e historicamente comprometido com as idéias de mudança, aplica uma política econômica ortodoxa e recessiva?

Esboço de resposta surge na aula inaugural do cientista político petista José Luís Fiori, na UFRJ. Análise que não contenta ninguém. “Os partidos socialistas estão submetidos a um modelo capitalista que já não permite aumentar o crescimento de um país ou distribuir renda entre sua população”. Ataca, com razão, a idéia de aliança entre governo de esquerda e setor produtivo da economia contra capital especulativo internacional. Bobagem pura. Ilusão ingênua. A esquerda não pode repetir tal asneira. “O grande capital é tanto produtivo quanto financeiro, o resto é blá,blá,blá... Os grandes capitalistas são grandes predadores e estão sempre associados ao poder. Não se iludam: o capitalismo continua usando como armas a desestabilização e a ruptura constante da institucionalidade. Continua trabalhando com a lógica da conquista, da dominação e da exploração”. Resposta da esquerda radical.

Da extrema esquerda saltamos à extrema direita. O governo de Lula acabou de importar o economista Luiz Awazu Pereira da Silva. Novidade na equipe do Palocci. Assumiu o cargo de secretário internacional do Ministério da Fazenda. Formou-se pela Universidade de Paris. Trabalhou anos no Banco Mundial. Ajudou a transição do governo Mandela. Foi convidado para Tóquio durante os anos da crise asiática. Currículo para ninguém botar defeito. Chega otimista. Governo de esquerda tem que utilizar, na elaboração de suas políticas, o que se produz e se pensa de melhor nas áreas macro e micro econômicas. Que políticas são essa?

“Determinação em preservar a estabilidade macro institucional duramente conquistada. Sem isso não pode haver previsibilidade nas decisões de investir e o crescimento torna-se volátil ou insustentável. Nessa área não há muito que inventar. Sabe-se bem hoje o tipo de instrumentos a serem usados e sua arquitetura institucional: câmbio flexível com metas de inflação geridas por uma autoridade responsável e ortodoxia nas finanças públicas. Responsabilidade fiscal deve ser uma bandeira assumida pela esquerda no mundo todo. Do lado micro, é o desenho de incentivos para investidores e de políticas sociais modernas”. Não poderia resumir melhor a política ortodoxa. Detalha sua função no governo: “Meu objetivo é contribuir para melhor compreensão e avaliação das oportunidades para uma inserção bem pensada do Brasil no mundo globalizado”. Sintetiza sua visão da esquerda no poder: “A esquerda moderna tem sido, em todas as experiências de transição, uma força responsável do ponto de vista macro e modernizadora do ponto de vista microeconômico.” Reza bom catecismo. Mudamos da água para um bom vinho...

Quando se pergunta sobre projetos alternativos da esquerda ao neoliberalismo, o debate não avança na seara petista. Paul Singer, velho economista petista, guru de Lula, responde: “É claro que a esquerda tem um projeto alternativo ao neoliberalismo”. Quando há ociosidade da força de trabalho e do capital fixo, o remédio é a aceleração do crescimento. Reduz as pressões inflacionárias porque aumenta a economia de escala e diminui os custos de produção, permitindo vender a preços menores. Segue a ladainha heterodoxa. “O projeto da esquerda sustenta que o governo deve ser responsável pelo ritmo de crescimento econômico, pelo fomento da economia nas regiões mais pobres, pela redistribuição da renda como forma de lutas contra a pobreza e pelo pleno emprego.” O Estado deve redistribuir renda e capital. Prover fartos recursos de créditos. Controlar os fluxos de capitais para dentro e para fora do País. Poderes públicos devem gerar empreendimentos solidários, formas autogestionáveis de produção, poupança, de empréstimos e de consumo. Deve criar dentro do capitalismo espaços de democracia e igualdade social e econômica.

Deus nos acuda!... A ilusão do Estado provedor da bonança. A realidade fica cada vez mais obscura ou as fantasias brotam das asas da heterodoxia. Alguns petistas sofrem metamorfoses radicais. Outros mantêm a carapaça de sáurios do passado. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

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