No alvorecer do mundo, Deus quis criar, além dos homens, outras criaturas inteligentes, às quais deu a denominação de anjos, espíritos sem corpo cotados de liberdade de arbítrio. Muitos, indiferentes a tal predicado, passaram a abusar do pecado e da desobediência ao Criador e desandaram a arrastar o homem para decisões pecaminosas. São os denominados “demônios”, que iniciaram a construção daquilo que as concepções deram, rápido, a designação de inferno, o qual, conforme classificação dos clérigos, “não é um tanque de enxofre fumegante, onde os diabinhos atormentam os condenados, sendo algo muito mais sério”, tanto que, “embora no inferno a pessoa verifique ter cometido erros não pode converter-se porque é somente na vida terrestre, em contato com o corpo e as coisas sensíveis, que poderá mudar suas disposições, porquanto é gerado de tal modo que todos os seus afetos e aspirações dependem totalmente dos seus sentidos”.
Há muitos que perguntam como seja o inferno e tentam inutilmente descobrir, por pouco que sejam, os fundamentos bíblicos e/ou teológicos que os levem a admitir a sua existência real, sem fantasia. E, logicamente, acabam recebendo a explicação vernacular de que quando se diz que “o inferno não é necessariamente um tanque de enxofre ardente e, sim, um estado espiritual, não se creia que, com tais palavras, se tenha em mira negar a existência dele, pois ele é uma realidade que pode começar na terra, em qualquer lugar, e prolongar-se no Além, desde que o homem, voluntariamente, detenha-se nele, daí se concluindo que, verazmente, são os seres humanos que optam pela sua sorte eterna ou pelo inferno absoluto, condenando-se claramente através dos deslizes pecaminosos que eventualmente pratiquem contra si ou outrem, porquanto, em sua peregrinação terrestre, que dure minutos, horas, dias, meses e anos, as pessoas têm duas formas de vida possíveis: uma, a bem-aventurança risonha e, outra, a infelicidade tristonha, que é a do fogo infernal, que os incrédulos entendem como figura literária, só confirmada pelos que já a viram e não voltam para dizer...
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.
“Antes do mundo, houve o mar e a travessia, com tenacidade anônima, sem glória, pois só quem já emigrou além do mar um dia pôde de fato provar que ele existiu”.