“Haroldo é professor e Flávio é motorista, ambos da Prefeitura Municipal de Avaí. Certo dia, combinaram uma caçada de capivaras rodando pelo rio Batalha, numa noite de inverno, quando um frio gelado de junho cortava as suas orelhas. Isso faz mais ou menos 25 anos ou um quarto de século como dizem alguns.
Naquele tempo, não havia leis ambientais que impedisse tais práticas e a matança era conforme a cabeça de cada um, na base do vale-tudo. Embora não fossem chegados a shows pirotécnicos, possuíam um bote de madeira, muitas armas e munições, farol à bateria e ainda alguns cachorros americanos que faziam muito barulho.
O professor Haroldo tinha uma cartucheira calibre 12', daquela que derrubava o bicho para um lado e o atirador para outro e ainda fazia tanta fumaça que era preciso abanar os seus chapéus por vários minutos para enxergar onde estavam, mesmo com uso do farol, e o seu eco reverberava pelas curvas do rio desde Avaí até a região de Clavinote. Ia me esquecendo do garrafão de pinga para esquentar a friagem.
Mas ao anoitecer daquele dia, eles saíram da barra do Jacutinga para varar a noite e chegar aonde desse e lá pelas tantas horas conseguiram derrubar uma baita capivara que caiu e afundou na água, dando muito trabalho para ser encontrada e embarcada, devido a seu grande porte.
Devido a isso, cansados e com muito frio, bebiam cada vez mais da ‘marvada’ pinga que levavam, o que causou balanço na iluminação do professor que apontava o seu farol para a ponta das árvores ao invés de apontá-lo para o leito do Batalha. Isso fez com que o barco batesse numa velha ponte, afundando e atirando ambos os caçadores para dentro daquelas águas geladas.
Com muito custo, eles conseguiram sair do rio, sendo um do lado esquerdo e o outro do lado contrário, dificultando a ação de ambos, pois não se enxergavam devido à escuridão, mas de onde estavam viram que o farol, embora submerso, estava aceso no fundo da embarcação.
Não teve outro jeito senão cair na água gelada de novo para resgatar os equipamentos e também aquela capivara já abatida e embarcada. Ficaram contentes porque nenhum equipamento se perdeu e até o garrafão de pinga ainda estava lá. Eles resolveram então ‘destrinchar’ a bicha na beira do rio e, como todas as capivaras, esta fedia a léguas de distância, por isso bebiam mais daquela água que passarinho não bebe.
Na manhã do dia seguinte, entravam em Avaí abraçados para não caírem e carregados com um saco cheio com pedaços da capivara, espingardas, farol, bateria, três cachorros amarrados por um trela de arame e o garrafão de pinga já vazio. Adentraram no bar do ‘Último Gole’ e tomaram o primeiro gole do dia combinando que dali para frente cada um seguiria para sua casa.
Flávio ainda ofereceria capivara para as pessoas, pois nenhum dos dois comia daquele bicho fedorento. O Haroldo seguiria responsável pelo resto da tralha e estava preocupado com a falta do alvará da sua casa, mas ainda quis tirar uma dúvida que não lhe saía da cabeça:
- Flávio, como foi mesmo que o barco afundou?
- Foi lá na ponte que caiu - respondeu o outro.
- E onde foi que a ponte caiu - ainda quis saber o amigo.
- Foi lá na ponte que partiu - finalizou o Flávio indo embora.
Haroldo chegou na sua casa disposto a justificar seu sumiço inexplicado, mas a sua mulher ainda dormia. Sem tomar banho, ele deitou-se em um lado da cama, enquanto ela vazava pelo outro lado assustada com todo aquele fedor e disse:
- Vai feder capivara desse jeito lá na ‘ponte que caiu’.
Haroldo levou um susto e, admirado com a sabedoria da sua mulher, ainda perguntou:
- E como é que você sabe?
Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias.