Má postura, estresse exagerado e outros hábitos inadequados no dia-a-dia podem ser os responsáveis por um tipo de dor de cabeça muito comum e pouco divulgada: a dor miofascial. Pesquisa realizada na Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara aponta que 84% dos pacientes que apresentam cefaléias crônicas têm a tensão muscular como fator desencadeante.
Coordenador da pesquisa, o professor-doutor Francisco Guedes Pereira de Alencar Júnior explica que a dor miofascial é caracterizada pelos chamados pontos áugicos. Trata-se de nódulos com dois a cinco milímetros de diâmetro que se desenvolvem em diferentes regiões do corpo. Quando pressionados, esses nódulos reagem com dor, que se irradia para outros pontos do organismo.
“Isso é que gera confusão. Muitas vezes, a pessoa reclama de dor no ouvido, o médico examina o ouvido e não encontra nada. A origem da dor pode estar longe dali, em algum outro ponto da musculatura”, explica.
O especialista explica que existem diversos tipos de dor de cabeça. Um deles é a cefaléia tensional, que pode ser episódica ou crônica. Observando seus pacientes, Alencar Júnior percebeu que a dor miofascial era muito freqüente entre aqueles que sofriam de cefaléias crônicas e decidiu iniciar um trabalho para quantificar esses casos.
“Selecionamos 200 pacientes. Todos apresentam dores de cabeça pelo menos uma vez por semana há mais de seis meses e com intensidade que varia entre moderada e forte. Ou seja, 200 pacientes com cefaléia crônica”, explica.
Depois de uma avaliação minuciosa, a pesquisa apontou que em 84% dos participantes a dor era de origem miofascial.
Como ocorre
De acordo como Alencar Júnior, a pessoa com dor miofascial apresenta esses pontos áugicos. Quando esses “calos” são estimulados por uma contração muscular prolongada, a pessoa sente dor e essa dor reflete-se em outro ponto do corpo. Especialistas acreditam que a repetição de estímulos a esses pontos deixe-os cada vez mais inflamados, tornando a dor crônica.
Segundo o professor, os fatores que desencadeiam a dor miofascial estão quase sempre relacionados aos maus hábitos do dia-a-dia que aumentam a tensão muscular ou que sensibilizam o organismo. Por isso, corrigi-los é o primeiro passo do tratamento.
Paciente de Alencar Júnior, a atendente hospitalar Maria Lúcia Scaglia, 41 anos, confirma a importância de se rever hábitos rotineiros para o controle da cefaléia crônica . Ela lembra que sofre com as dores de cabeça desde os 7-8 anos de idade.
“Minha mãe tentava controlar com medidas caseiras, chás, batata gelada. Mas quando cheguei à adolescência, as oscilações hormonais fizeram piorar as crises e eu comecei a tomar analgésicos”, conta.
Só por volta dos 30 anos Scaglia decidiu buscar tratamento médico. Visitou diversos consultórios, iniciou e abandonou vários tratamentos, pois os medicamentos garantiam pouca melhora com muitos efeitos colaterais. “E eu tinha crises horríveis. Houve uma vez, inclusive, que fui levada ao pronto-socorro e nem um derivado de morfina tirou minha dor”, comenta.
Há cerca de dois anos, Scaglia procurou Alencar Júnior. O especialista prescreveu um relaxante muscular e conscientizou a atendente de que a mudança tinha que partir dela, com alterações de conduta no dia-a-dia.
“Comecei a fazer exercícios físicos, correção postural, passei a me policiar para tomar mais água e me alimentar direito, aprendi técnicas de respiração e a dor melhorou muito. Tanto isso tudo é importante ao tratamento que, recentemente, alguns problemas me fizeram abandonar parte dos novos hábitos, como os exercícios físicos, e eu voltei a ter aquelas crises fortes”, afirma.
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Automedicação
O especialista Francisco Guedes de Alencar Júnior chama a atenção para os perigos da automedicação por quem sofre de dores de cabeça crônicas. Segundo ele, essas pessoas tendem a ingerir grande quantidade de analgésicos e numa freqüência perigosa.
“O excesso de analgésicos pode causar o que chamamos de cefaléia de rebote. Quando alguém ingere analgésicos mais de dois dias por semana sistematicamente, o organismo sofre uma intoxicação medicamentosa e essa intoxicação causa ou intensifica a dor de cabeça”, explica.
Segundo ele, é comum o doente dizer que o remédio já não faz mais o mesmo efeito de antes, não corta mais a dor. Mesmo assim, ele continua tomando o medicamento por achar que, sem a droga, a dor vai ser ainda pior.
“Se você precisa tomar analgésicos por mais de dois dias na semana, procure um especialista. Ele pode instituir uma terapia farmacológica preventiva, uma medicação que você vai tomar todos os dias para diminuir a freqüência e intensidade da dor, mas que dispense o uso prolongado de analgésicos”, recomenda.