Política

Campanha política é rica em folclore

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 5 min

Ao longo dos anos, as campanhas políticas sempre foram marcadas pela seriedade dos programas de governo e discursos inflamados. Muitas vezes, porém, quem rouba a cena são as histórias de bastidores, que acabam recheando de folclore a disputa pelos cargos públicos. A reportagem do Jornal da Cidade conversou durante a semana com personagens que participaram ou viveram de perto algumas dessas situações curiosas.

Os relatos mostram que, em diversas oportunidades, os candidatos são obrigados a contar com muito jogo de cintura para driblar os acontecimentos inusitados que surgem pelo caminho ou até mesmo para corrigir possíveis gafes que cometam.

O ex-deputado estadual Abrahim Dabus conta que uma de suas primeiras missões quando decidiu se candidatar ao cargo, no início da década de 70, foi comparecer a um espetáculo de luta livre no Ginásio Panela de Pressão. Ele teve que vencer a timidez quando foi convidado a subir no ringue, mas confessa que quase se arrependeu.

Segundo Dabus, o lutador que fazia o papel de vilão durante o evento era conhecido como Abdala, nome de origem árabe, a mesma do então candidato. “Achei que as pessoas fossem fazer essa associação e tive a impressão que a minha carreira política estava sendo abortada ali”, relembra.

Quatro mandatos e muitos anos depois, o ex-deputado afirma que fazer campanha naquela época era mais difícil, pois a estrutura dos partidos era menor. “Ela era toda montada em cima de situações amadoras. Tínhamos um personagem do nosso grupo que percorria as vilas e era chamado de ‘Bate-palmas’. Se não fosse ele, ninguém ficava conhecendo os candidatos”, comenta.

O ex-deputado estadual Roberto Purini também reconhece a importância dos cabos eleitorais, mas lembra que, muitas vezes, eles também eram responsáveis pelas gafes.

Purini revela que, certa vez, foi levado por um deles para visitar algumas residências do Jardim Redentor. No quintal de uma das casas, se encontrava um velhinho sentado em uma cadeira. Abatido e com tosse, o eleitor tentou afastar a visita argumentando que estava muito doente para pensar em política naquele momento. Imaginando que ele estivesse preocupado em morrer antes do pleito, o cabo eleitoral teria trocado os pés pelas mãos. “Ele falou para o velhinho que tinha certeza que daria tempo pelo menos dele votar, mostrando que estava mais interessado nas urnas do que na saúde do cidadão”, relata.

Palhaços

O candidato que não quer perder espaço junto aos eleitores também precisa, muitas vezes, se fingir de surdo. Roberto Purini destaca que, certa vez, estava almoçando em um restaurante quando um dos garçons comentou com ele que não agüentava mais trabalhar o dia inteiro e ser obrigado a chegar em casa e assistir à propaganda política, sem se dar conta de que estava falando com um candidato. “Ele reclamou que tinha que ficar vendo aqueles ‘palhaços’”, relembra o ex-deputado.

Na luta pelos cargos públicos, a língua portuguesa também pode acabar se tornando uma adversária ferrenha para muita gente. É o que conta um bauruense que acompanhou diversas campanhas políticas e que pediu para não ter o nome revelado. De acordo com ele, um candidato visitava uma rua de terra e quis prometer aos moradores que iria asfaltar o local se fosse eleito, mas acabou tropeçando. “Ele falou que a sua primeira providência quando assumisse seria ‘apedrejar’ aquele lugar”, recorda.

Já o consultor financeiro-administrativo da Câmara Municipal, Irineu Bastos, afirma que já presenciou o excesso de confiança acabar com candidaturas. Segundo ele, o ex-prefeito Nicola Avalone Júnior apoiava Luiz Zuiani à sucessão municipal e teria prejudicado o colega ao dizer que elegeria até um poste. “A oposição explorou esse fato e o Nuno de Assis acabou vencendo”, diz.

Ainda na linha das disputas acirradas, o historiador Luciano Dias Pires conta que, nos anos 50, Avalone Júnior derrotou Octávio Pinheiro Brisola por apenas 267 votos, o que teria feito com que o perdedor exigisse a reabertura das urnas. “Depois que isso foi feito, apareceu exatamente a mesma diferença e o partido do Brisola teve que ficar quieto”, declara.

Abelhas

O vereador Faria Neto (PDT) explica que passou por situações curiosas quando foi candidato a prefeito de Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru). No dia da eleição, ele conseguiu um caminhão para transportar os índios até os locais de votação, o que era permitido na época. “Quando meu colega desceu da carroceria para abrir a porteira, esbarrou em um cacho de abelhas e elas picaram todo mundo”, relembra.

Durante a campanha, ele também confessa ter ficado assustado ao visitar um sítio da cidade. O dono da casa, segundo Faria Neto, permaneceu o tempo todo calado e com expressão de poucos amigos. No momento da despedida, disse ao candidato que não sabia como ele ainda tinha coragem de ir até lá para pedir voto.

Na defensiva, o candidato escutou o sitiante contar que a filha havia fugido com o namorado e, depois de localizada, foi obrigada a se casar. O problema é que a família não tinha dinheiro para pagar o cartório.

O sitiante decidiu, então, procurar por Faria Neto, que trabalhava como cartorário, e ficou sabendo que poderia fazer o pagamento quando tivesse recursos. “Aí ele me disse que ainda não tinha sobrado nenhum dinheiro e mesmo assim eu não havia feito a cobrança. Só daí é que eu entendi que ele quis dizer que o voto da família era meu e que ele não sabia como eu ainda tinha coragem de perder tempo para ir pedir um voto que já estava garantido”, detalha.

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