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Cobertura eleitoral, todo cuidado é pouco


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Recentemente, o jornalista Marcelo Beraba, ombudsman da Folha de S.Paulo, pôs o dedo na chaga de algumas distorções da cobertura de política dos nossos diários. Segundo Beraba, algumas fórmulas estão esgotadas. São repetitivas e nada acrescentam à compreensão dos fatos. “Um exemplo é a cobertura da política partidária. Ela é, em geral, chata porque dá muito destaque às fofocas de gabinetes e manobras palacianas, valoriza as aspas e segue a agenda do mundinho político, que raramente coincide com os interesses dos leitores,” concluiu o ombudsman.

Concordo com Beraba. Além disso, é preciso ter especial cuidado com a interpretação de curiosas oscilações das pesquisas eleitorais. Pesquisa é um instrumento válido, mas não pode ser transformada em dogma de fé. Quando nos limitamos a repercutir o resultado das pesquisas e não somos capazes de analisá-las, com objetividade e distanciamento, a coisa complica. Temos um exemplo recente. Pesquisa Ibope (28/6), encomendada pela TV Globo, sobre a sucessão paulista, confirmou a liderança isolada do candidato do PSDB, José Serra, que apareceu com os mesmos 30% atribuídos a ele pelo Datafolha, no domingo (27/6). Em segundo lugar está Paulo Maluf (PP), com 21%, e em terceiro aparece a prefeita Marta Suplicy (PT), com 16%. O resultado não deixou de surpreender, já que uma pesquisa do mesmo Ibope, encomendada e paga pelo PT, atribuiu 22% para Serra, 21% para Marta e 18% para Maluf. É surpreendente, caro leitor, a disparidade.

Uma cobertura de qualidade é, antes de mais nada, um problema de foco. É preciso acabar com o jornalismo puramente declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. Não basta fazer um painel dos leitores, mas é preciso cobrir a fundo as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção não mais nos políticos e em suas milionárias estratégias de imagem, mas nos problemas que os cidadãos estão reclamando. O marketing político, freqüentemente, vende uma bela embalagem. Nós, jornalistas, precisamos desembrulhar o pacote e mostrar o produto como ele efetivamente é.

Alguns candidatos, dominados pela obsessão de um bom desempenho na mídia, só pensam no efeito imediato de suas declarações, no gesto que traz dividendos, no slogan que produz impacto eleitoreiro. Ao encantamento da imagem se acrescentam outras tendências que compõem o perfil médio do político brasileiro: a transferência de responsabilidades, o descaso com a coerência e o descompromisso com a verdade. Certo candidato, por exemplo, costuma dizer que, se eleito, porá a Rota na rua. Não podemos registrar tamanha demagogia sem indicar o óbvio num box: A Polícia Militar de São Paulo, e conseqüentemente a Rota, depende do Governo do Estado. O prefeito pode, apenas, cuidar da Guarda Civil Metropolitana. A declaração do candidato, portanto, é descabida e mentirosa. Ponto final. É um exemplo, sem dúvida simples, mas que somado a outras providências editoriais acaba resultando numa cobertura de qualidade.

Um jornalismo previsível faz o jogo dos políticos. Chegou a hora de assumirmos, de fato, o nosso papel de informadores e defensores da sociedade. Só assim conseguiremos que os leitores percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um parceiro insubstituível no exercício da cidadania. (O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é diretor para o Brasil da Universidade de Navarra - e-mail: difranco@ceu.org.br)

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