Se policiais militares não aparecessem, um menino de 11 anos poderia ter sido vítima de atentado violento ao pudor, em Bauru, na madrugada de ontem. Ele contou que foi agarrado por dois homens quando dormia na rodoviária e levado para um terreno baldio na avenida Nuno de Assis. O mais surpreendente do fato é que o garoto chegou a Bauru após ter fugido de sua casa, no Rio de Janeiro. A mãe, uma bancária de classe média, disse ao JC, por telefone, que ele já fugiu cerca de 100 vezes.
Levado ao Conselho Tutelar para ser abrigado, ele revelou que sempre foge de casa e já esteve em várias cidades. “Com um livro de geografia, que utilizava para escolher o próximo destino no mapa, e um Estatuto da Criança e do Adolescente na mochila junto com algumas peças de roupas, ele contou que pretendia ir para Campo Grande (Mato Grosso do Sul)”, relata Sandra Cristina Ferreira, presidente do conselho.
Diante da revelação, ela entrou em contato com o Conselho Tutelar do Rio, que confirmou a história. “Ele tem uma série de fugas registradas em vários conselhos tutelares. No Rio, nos informaram que ele foi entregue à família na semana passada, depois de ser achado no Espírito Santo, mas fugiu novamente. Ele vive fugindo, diz que quer conhecer os lugares”, comenta Sandra.
Sem nenhum documento, quando foi agarrado na rodoviária, ele já havia comprado passagem para Jaú. “Ele contou que pedia dinheiro para as pessoas na rua dizendo que precisava voltar para casa. Mas não voltava. Comprava passagem de ônibus e ia para uma outra cidade e depois outra. Ele pegava o ônibus fora da rodoviária, na estrada”, diz a presidente do Conselho Tutelar.
Ontem, após passar por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal, o garoto foi abrigado provisoriamente em uma entidade de Bauru, de onde tentou fugir à tarde. “Estamos mantendo contato com o Conselho Tutelar do Rio de Janeiro para pagar a passagem para que a mãe dele venha buscá-lo”, conta Sandra.
A mãe, que freqüentemente tem de deslocar-se para outras cidades para buscá-lo, disse que não tem dinheiro para vir a Bauru. “Estamos negociando para que o Conselho Tutelar do Rio pague a passagem da mãe para Bauru e nós pagamos a passagem dela e do menino de volta”, diz. Se a mãe não vier até o final de semana, um representante do Conselho Tutelar de Bauru deverá levá-lo ao Rio.
O garoto, que é filho de pais separados, queria que o casal voltasse a viver juntos. “Ele disse que prefere morar na rua depois que quis ir viver com o pai, mas não deu certo”, conta a mãe. O garoto abandonou a escola na 4.ª série, aos 10 anos.
De acordo com a mãe, é um menino muito esperto. “Ele fazia informática, inglês e natação, além da escola. Ele passou por um exame que mostrou que o QI (quociente de inteligência) dele é acima da média”, conta a mãe.
Problema emocional
Para a psicóloga Marly Bighetti Godoy, a compulsão pela fuga deve ser reflexo de algum problema emocional. “Ninguém foge de casa se não tiver algum problema. Não conheço o caso, mas ele pode estar querendo carinho, afeto”, frisa.
Ela ressalta que agora, depois de várias fugas, a mudança de comportamento é mais difícil. “A rua tem seus atrativos, não tem regras, limites. É difícil para uma criança que já ficou na rua, onde consegue ganhar dinheiro para comprar o que quer e fazer o que quer, voltar para casa ou permanecer em uma instituição”, diz Marly.
A psicóloga alerta sobre o risco de crianças que fogem para a rua caírem no crime. “Quando é criança, é bonitinho e consegue ganhar dinheiro das pessoas. Quando cresce, passa a representar uma ameaça para as pessoas e aí pode cair no crime para conseguir o que quer”, diz.
____________________
Dupla é presa por tentativa de violência
O menino foi achado por policiais militares quando já estava dominado por dois homens em um terreno baldio, na avenida Nuno de Assis, por volta das 2h30 de ontem. Um dos homens estava sobre o garoto, tentando despi-lo. Os dois foram autuados em flagrante por tentativa de atentado violento ao pudor.
“O Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) recebeu uma ligação informando que uma menina havia sido agarrada por dois homens na rodoviária. Nós seguimos para o local que eles teriam ido e ouvimos os gritos. Achamos um homem deitado no chão e quando o abordamos vimos que ele estava sobre um menino”, conta o soldado Athos Neuber, que trabalha na Base Comunitária Leste da 4.ª Cia da Polícia Militar (PM).
No mesmo local, os policiais detiveram um outro rapaz, que estaria dando retaguarda à ação. “O que nos surpreendeu foi a história de fugas que o menino contou. A princípio, achamos que era invenção dele”, comenta o soldado Athos.
O delegado J.J. Cardia, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), conta que Mário Sérgio Jerônimo, 35 anos, o homem que estava sobre o garoto, já tinha passagens pela polícia. “Ele já cumpriu pena de dez anos por homicídio”, diz. Ele é catador de papelão e mora no Ferradura Mirim. Também foi preso sob a mesma acusação o engraxate Leandro de Oliveira Antônio, 21 anos.