Saúde

Saúde bucal: Maioria dos idosos resiste ao dentista

Michelle Roxo (colaborou Agência Notisa)
| Tempo de leitura: 5 min

Nas últimas décadas houve um aumento significativo da expectativa de vida da população brasileira. Com isso, o número de idosos cresceu, tornando cada vez mais necessários serviços específicos de saúde, entre eles, o odontológico. Entretanto, a atenção dispensada à saúde bucal dos idosos continua muito aquém das necessidades. A população com idade acima de 60 anos, em geral, tem elevados índices de dentes perdidos. Essa foi a conclusão de um estudo desenvolvido junto aos idosos de Rio Claro, publicado recentemente por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A mesma realidade pode ser percebida em relação à saúde bucal dos idosos de Bauru, de acordo com a professora de odontologia do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP) Renata de Almeida Pernambuco.

Segundo ela, o último levantamento de saúde bucal realizado na região da DIR-10, em 1998, apontou que 61% dos idosos apresentavam perda total de dentes (edentulismo). Entre uma população de cerca de 4 mil pesquisados, a média de dentes perdidos foi de aproximadamente 93%.

Os dados não diferem da média nacional. Segundo a professora, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em 2003 apontou que, no País, a média de dentes perdidos entre os idosos é de cerca de 93% e a incidência de edentulismo atinge 64% da população, entre 64 e 75 anos.

Na avaliação de Renata, os índices são preocupantes, principalmente quando comparados às metas estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Até o ano 2000, segundo a professora, a meta da organização era de que 50% dos idosos do mundo tivessem 20 dentes ou mais na cavidade bucal. Na região Sudeste, em 2003, apenas 9,3% da população idosa apresentava esse índice. “A maioria dos idosos do Brasil é desdentado. Nós estamos muito distantes das metas”, conclui.

Para 2010, a OMS estabelece que apenas 5% da população idosa do mundo, com idade entre 64 e 75 anos, seja desdentada. Ou seja, os números de Bauru ainda estão bem distantes dessa realidade. “Estamos em 2004 e eu encontro na população de idosos de Bauru, uma cidade que tem três faculdades de odontologia, 61% de desdentados”, lamenta a professora, lembrando que no Brasil, cerca de 19% da população nunca foi ao dentista.

Renata desenvolve um trabalho de fôlego na área de saúde bucal junto os idosos de entidades assistenciais de Bauru, como a Vila Vicentina. Ela é coordenadora do projeto Extramuros, do HRAC, que oferece tratamento gratuito a crianças e idosos assistidos.

Dificuldades

Renata afirma que os avanços científicos e tecnológicos no campo da odontologia foram significativos nos últimos tempos. Entretanto, na avaliação da professora, o País ainda não possui políticas de saúde pública efetivas para reverter a precariedade da saúde bucal entre a população idosa. Atualmente, segundo ela, faltam recursos e infra-estrutura para atender aos pacientes por meio da rede pública. “São necessários investimentos específicos em programas de atendimentos a idosos”, defende.

Aos serviços odontológicos de baixa cobertura soma-se também o problema da falta de informação da população. A professora alerta para o fato de que muitos brasileiros ainda não atentaram para a importância das ações preventivas de saúde bucal. “Por uma questão cultural, a maioria da população ainda pensa que extrair um dente e colocar uma dentadura é a solução do problema. É uma cultura mutiladora, mas hoje essa mentalidade está começando a mudar”, completa a professora, mostrando-se otimista.

Na avaliação de Renata, se desde cedo as pessoas tivessem uma boa higienização bucal, poderiam chegar à terceira idade com os dentes saudáveis e resistentes. “É perfeitamente possível que o idoso chegue a essa idade avançada com todas os dentes na boca”, diz.

A professora ressalta a importância de serem desenvolvidas ações de saúde bucal preventivas, educativas, curativas e reabilitadoras junto a essa população. “A presença de dentes na boca só aumenta a qualidade de vida dos idosos”, conclui.

Em Bauru, o Programa de Atendimento ao Idoso (Promai), da Secretaria Municipal de Saúde, desenvolve junto aos idosos apenas ações de caráter educativo e preventivo na área odontológica. O atendimento curativo é realizado nas unidades básicas de saúde, entretanto não existe, nesses locais, um programa de atendimento específico para a saúde bucal dos idosos.

A cidade também conta com três faculdades que oferecem atendimento gratuito na área odontológica: a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), a Universidade Paulista (Unip) e a Universidade do Sagrado Coração (USC).

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Asilados

No asilo da Vila Vicentina, segundo a professora Renata Pernambuco, cerca de 100% das mulheres e 75% dos homens são desdentados. “Praticamente nós temos que colocar dentadura em todos”, diz a professora, destacando que a instituição abriga atualmente cerca de 90 idosos.

Renata afirma que os asilados, em geral, têm pouco interesse estético com a dentição e procuram o dentista apenas quando estão acometidos por alguma dor. “80% deles descrevem que só vão ao dentista quando sentem dor, diferente dos idosos não institucionalizados, que vão ao dentista uma vez ao ano, em média”, diz.

Os asilados, segundo a profissional, também apresentam uma resistência inicial em utilizar próteses. Para ela, isso pode ser um reflexo do processo de marginalização social. “Por que eu vou colocar o dente, se eu nem saio daqui? É essa a pergunta que eles fazem para a gente”, afirma.

Já aqueles que utilizam prótese, segundo Renata, em muitos casos nunca a trocaram. Esse é o caso do asilado Aparecido Garcia, 63 anos, que chegou à instituição há cerca de dois meses. Ele afirma que está há 30 anos utilizando a mesma prótese e há cerca de três anos não visita um dentista. “Essa dentadura eu tenho há 30 anos, eu tenho vontade de colocar uma nova, mas tenho medo de não me acostumar”, diz.

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