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Golpes sociais


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A carência de parte da população brasileira é tão profunda e o golpe social tão esmerado e inteligente, que fica difícil saber o que é real e o que é golpe. Surgem em meio à pobreza algumas pessoas tão “artistas” que causam tamanha compaixão e que não deixam dúvida da sua honestidade. É como se fosse um “conto do vigário”. Difere, no entanto, pois, no “conto do vigário”, sempre existe uma permuta, por exemplo, pagar menos por um bilhete de loteria “premiado”, do valor em dinheiro da aposentadoria de um velhinho por um cheque de valor maior etc.

Vou citar casos acontecidos em nossa empresa ao longo de alguns anos. 1- Uma senhora de aproximadamente 60 anos de idade se apresentou a mim, chorando, e disse que o seu marido havia morrido de repente e estava sendo velado em sua casa no mesmo bairro e ela não tinha recursos para fazer o enterro. Estava pedindo uma ajuda para alguns comerciantes com uma lista na mão. Perguntei-lhe onde ela morava. Ela respondeu, na rua do Lago no Ipiranga (bem próximo do nosso antigo local de trabalho). Com dúvida, embora a mulher estivesse perfeita em sua encenação, disse-lhe: “Vamos até lá que eu pago o enterro sozinho, não há necessidade de lista.” A mulher deu um jeito e desapareceu. Era um golpe, felizmente fracassado.

2- Um senhor, de mais ou menos 50 anos, apareceu em nossa recepção, pediu para falar com um gerente, dizendo que era meu amigo e que eu já o havia ajudado no passado a custear os gastos com sua mãe que tinha câncer. Infelizmente, a mãe dele teve que amputar as duas pernas, disse. Agora, era ele quem precisava de ajuda (estava arrastando uma das pernas). Queria R$ 300. Trouxe duas caixas de copos (24 peças) comuns, de presente. O gerente ouviu sua história, devolveu-lhe uma dúzia de copos, deu-lhe R$ 200, recebeu um beijo de agradecimento e ficou pensando: foi golpe ou não?

Há também outros tipos, como por exemplo: alguém aborda uma pessoa na rua pedindo ajuda para comprar uma passagem de ônibus para voltar ao Interior ou para o Nordeste dizendo que não tem onde dormir ou comer e faltam apenas R$ 5,00 para completar o valor da passagem, ou então que o seu caminhão vai ser guinchado, e, para não ser multado, precisa de R$ 50,00 para consertá-lo.

A alma boa do brasileiro é testada a todo momento. Ele já não sabe no que acredita. Apenas faço um alerta: fique esperto, mas não perca a sua compaixão e a sua bondade.

O autor, Milton Bigucci, é presidente da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC e vice-presidente do Secovi.

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