Os atletas brtasileiros iniciaram esta semana os embarques rumo a Atenas para a disputa dos Jogos Olímpicos. O Brasil levará sua maior delegação da história dos Jogos, são 245 atletas em busca da glória única de subir ao pódio da mais importante competição esportiva do planeta.
O judoca meio-pesado Mário Sabino Júnior, que disputará sua segunda Olimpíada - foi sétimo colocado em Sydney/2000 - e o técnico da seleção de basquete feminino, Antonio Carlos Barbosa, levarão o nome de Bauru a este momento histórico. Barbosa já teve o prazer de subir ao pódio, em Sydney, onde conquistou a medalha de bronze.
Em comum, além de representarem Bauru, Barbosa e Sabino levam muito otimismo na bagagem e sentem-se preparados para lutar pelo pódio. “Estamos embarcando confiantes, sem aquele apavoramento que levávamos para outras competições de não saber como o time iria se comportar, já que as jogadoras estavam em diferentes níveis físicos e, consequentemente, técnicos. Estamos indo com a equipe num ponto bom e ainda teremos de 15 a 18 treinos fortes antes da nossa estréia. Estaremos concentrados e focados, o que nos dá tranqülidade para ‘ajustar’ e não treinar o time”, afirmou Barbosa, um dia antes de embarcar com a equipe, na última quinata-feira.
“Desta vez será diferente”, declarou Sabino. “Em Sydney, o pessoal não esperava que eu vencesse a seletiva e eu acabei vencendo. De lá para cá eu me mantive na seleção e passei de azarão a candidato a medalha. Tive uma evolução grande, disputei circuitos europeus, medalhei no Pan-Americano (ouro) e no Mundial (bronze). Agora eu sou cabeça-de-chave, então, existe uma cobrança maior, sou um atleta mais conhecido e todos me respeitam mais”, disse Sabino.
O judoca embarca amanhã, rumo à Coimbra, em Portugal, onde a Seleção Brasileira fará um período de aclimatação ao fuso horário, antes de chegar a Atenas, no dia 8. A competição no judô começa no dia 14.
“Acho que se eu não conquistar uma medalha, para mim vai ser uma decepção muito grande. Mas estou tranqüilo, estou bem treinado, a seleção foi defininda quatro meses antes e a preparação foi muito boa, fizemos estágio fora, ficamos dez dias na França e 20 no Japão, que são os dois maiores pólos do judô mundial atualmente”, contou o judoca.
Sabino vai aos Jogos como um dos quatro cabeças-de-chave de sua categoria, que terá 32 lutadores. Os outros três são o japonês Koseï Inoue, atual campeão olímpico; o francês Ghislain Lemaire e o bielorusso Ihar Makarau.
O judoca aponta outros candidatos à medalha. “Tem o Ariel Zeevi, israelense, tricampeão europeu; tem o Nicolas Gill, que tem quatro medalhas olímpicas; tem o Antal Kocavs, húngaro, da minha idade (32 anos), que vai para a quarta Olimpíada e que venceu em Barcelona (bateu Aurélio Miguel na final); tem o Michele Monti, um italiano também da minha idade e que já foi pódio no Circuito Europeu e bronze no Mundial; tem o atleta do Cazaquistão, o Askhat Zhitkeyev, tricampeão asiático; o Miralliyev (Movlud), do Azerbaijão, que foi bronze no absoluto do mundial passado. É uma categoria muito equilibrada. Não dá para apontar medalhistas”, analisou o bauruense.
Sobre a equipe brasileira, Sabino também está otimista. “Vamos com uma equipe bem experiente, cinco dos atletas já lutaram em Olimpíada (o próprio Sabino, Flávio Canto, Daniel Hernandes, Henrique Guimarães e Carlos Honorato). O feminino teve uma evolução muito grande e de Sydney para cá teve duas medalhas mundiais, com a Daniele Zangrando e a Ednancy Silva. Todas têm condições de brigar por medalha. Mas não dá para projetar quem vai ganhar ou não medalha, chance todo mundo tem, porque todos são conhecidos. Por outro lado, temos de respeitar todo mundo, não tem essa de luta de aquecimento em Olímpíada. Se vamos trazer medalhas ou não é difícil dizer, o que eu sei é que, com certeza, tem muita gente preocupado com nós.”
Sabino considera Atenas como “a Olimpíada” de sua carreira. “Acho que esse é o meu momento, um ano depois do ouro no Pan e do bronze no Mundial, vou para uma Olimpíada. Estou no auge de minha forma física e muito bem treinado, com experiências importantes acumuladas”, disse Sabino.
Já Barbosa, sabe que uma medalha já tem dono. Os EUA são apontados por ele como quase imbatíveis. “Mas ainda estamos entre as quatro maiores forças do basquete mundial, ao lado das americanas, da Rússia e da Austrália. Mas acredito em nossa equipe”, afirmou.
Barbosa aponta os pontos fortes do Brasil. “Nós chegamos à mescla ideal. Temos jogadoras como a Janeth, a Helen e a Alessandra, de muita experiência. Temos um grupo intermediário, que é a Cíntia, a Leila, a Adrianinha e a Kelly. E, depois, tem um grupo jovem, que é a Iziane, a Érica, a Vivian, a Karla e a Sílvia”.
“O time base que eu imagino e que deve ser o titular representa essa mescla. A Alessandra vai para a terceira Olimpíada. A outra pivô, a Cíntia, efetivamente vai para a segunda, já que em 1996 ela foi mas não jogou, desenvolveu muito em 2000 e agora vai jogar muito nessa. A Helen também vai para a terceira, sendo que em 2000 já era titular, a Janeth dispensa comentários. A quinta titular, a Iziane, que é jovem, vai ser a grande jogadora não só do Brasil, mas a revelação dos Jogos”.
A aposta em Iziane é fundamentada nas características da jogadora, que segundo Barbosa fez o Brasil voltar a jogar em alta velocidade, com uma saída rápida de bola. “Nossos pontos estavam sendo muito difíceis de sair, precisavam ser muito trabalhados, em jogadas de cinco contra cinco e isso no basquete mata qualquer time. Então agora temos uma jogadora que vai nos possibilitar fazer aqueles pontos mais fáceis, que são os de contra-ataque. Eu considero que este time nosso é bem superior ao de 2000, Principalmente em termos de preparação”.
Nos bastidores do basquete existem aqueles que apostam ser essa a última Olimpíada de Barbosa, principalmente por causa de uma hipotética necessidade de renovação do basquete feminino Brasileiro. “Eu me considero experiente e não superado. Eu discordo muito quando se fala em evolução no basquete. Existe evolução naquilo que te auxilia no treinamento, em coisas que também são importantes para o jogo, como a parte física, fisioterapia, meios auxiliares, como neuroligüística e psicologia que trabalham o emocional, tudo isso te dá um suporte grande e evolui diariamente”.
Para ele o basquete não tem o que mudar. “Há, na verdade, muito modismo no basquete. Então tem um tempo em que todo mundo marca zona, depois todo mundo inventa de marcar individual. Aí vê um jogo que um time americano ganha uma competição marcando um-três-um, começa todo mundo a marcar um-três-um.”
Barbosa não vê necessidade de o basquete brasileiro se espelhar em outras escolas. “Cada um tem sua verdade, eu tenho a minha verdade, tenho um histórico que me dá condições para dizer isso, claro que isso passa por ter discernimento para avaliar e reavaliar o que é feito. Nós temos dois títulos mundiais no masculino e um no feminino, nós temos cinco medalhas olímpicas. O basquete brasileiro não tem de copiar nada de ninguém, nós temos é de acreditar na gente, nos nossos conceitos.”
Por outro lado, fora das quadras, Barbosa vê a necessidade de uma reestruturação. “Nós temos de tirar sim exemplos de organização, de estrutura e de aspectos que outros países estão melhores que a gente”.
Assim, Barbosa descreve o perfil do basquete feminino brasileiro como um basquete de velocidade e precisão nos arremessos, com disciplina trática, mas que dá liberdade para o afloramento do talento individual. A grande deficiência do Brasil seria na marcação. “Hoje, nessa minha volta à seleção eu priorizei a marcação. Na minha primeira passagem pela seleção (1976 - 1984) tínhamos um time com potencial de 100 pontos. Na minha volta, em 1997, já sem a Hortência e a Paula perto de encerrar a carreirra, eu senti que não tínhamos mais um time de 100 pontos, e sim de 70 a 80 pontos, então pasamos a ter de defender melhor, para não tomar mais de 70”.
Sabino tem um discurso afinado com Barbosa, quando vê cada região praticando um judô com suas características. “Os japoneses, que criaram o judô, praticam o judô clássico, que segura na manga, na gola, faz os golpes normais, tradicionais. Nosso judô é semelhante ao deles, devido à imigração. Na Europa é totalmente diferente, além da força física, hoje eles usam muitas técnicas de contragolpe e de agarramento, com influências da luta livre e greco-romana, que são técnicas válidas no judô.”
Assim, para conseguir se manter como uma das principais forças do judô mundial, os brasileiros se viram obrigados a fazer intercâmbio. “Cada região tem seu estilo de luta, por isso temos de fazer esses intercâmbios, para enfrentar o japonês, com seu estilo clássico, mas também um cara que vem da Georgia agarrando nas pernas e usando técnicas de outras lutas não muito convencionais dentro do judô. Temos de estar preparados para enfrentar qualquer tipo de luta”.
Para Barbosa, no basquete o intercâmbio com outras escolas ocorre, mas não propositalmente como no judô. “O Brasil de importador de jogadoras passou a exportador. Vivemos uma crise dos grandes patrocinadores, sem contar as estatais que nos davam apoio e retiraram, um ‘favor’ que o falecido Covas (Mário Covas, ex-governador do Estado) nos fez. Além disso com a desvalorização do real, nossas jogadoras se tornaram mão de obra barata para eles”.
A solução, segundo Barbosa, está na criação de uma lei de incentivo fiscal ao esporte, nos moldes da Lei de Incentivo à Cultura. “A disputa interna ficou frágil, só que por outro lado, se tornou uma solução. Para mim, enquanto técnico da seleção é melhor que saiam todas de uma vez, porque pelo menos elas estão jogando campeonatos de alto nível, elas crescem em termos de competição, amadurecem tecnicamente, emocionalmente. E isso acaba possibilitando o surgimento de novas jogadoras, devido à necessidade de reposição.”
Barbosa revelou ainda que após a Olimpíada poderá trabalhar em um clube. “Existe a possibilidade de eu ir para o Rio. Recebi um convite para fazer um contrato de três anos com a Prefeitura do Rio para tocar o projeto. O time vai se chamar Basquete Rio, como o Oscar vai ter no masculino. Eu seria o coordenador de todo o projeto do feminino.”
Sabino, após os Jogos, disse que continuará treinando para o Mundial no Egito (2006) e para se manter como titular da seleção permanente, já que pretende ainda disputar a Olimpíada de Pequim, em 2008.
Um fator que preocupa a todos em Atenas é a questão da segurança, devido às ameaças terroristas. Os bauruenses também se afinam em relação ao problema. “Eu prefiro não pensar muito nisso, para não ficar com neura. Claro que eu acho que a segurança lá vai ser extrema, devido ao ponto que chegou com esses problemas do terrorismo. É o momento desses malucos aparecerem. Terrorismo é a maior covardia do mundo, tudo que é anônimo é abominável, acho que você tem de por sua cara. Para mim o terrotismo é abominável. Mas eu pefiro não me ligar muito nisso, para não ficar na neura”, comentou Barbosa.
“Não me preocupo muito, porque já estive em muitos lugares onde poderia ter acontecido muitas coisas, como no Japão, onde tem muito terremoto. Estive na Romênia, onde um dia depois de sairmos do país, o presidente decretou estado de sítio. Já fui para Medellín, onde existem os cartéis de traficantes e a violência é grande. Na Venezuela disputamos o Pan e no dia seguinte estourou todo aquele problema, com passeatas e tudo mais. Perigo existe em qualquer lugar e a gente sabe que o terrorismo não vai acabar da noite para o dia. A segurança está lá, mas se tiver de acontecer algo, nada vai impedir, porque os terrotistas podem se infiltrar em comitivas. Mas eu não me preocupo com isso não, estou pensando memso é nas lutas que terei de vencer”, encerrou Sabino.