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O pior cenário

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Há três anos, os brasileiros foram informados que o País seria submetido a um racionamento de energia, diante da iminência de um “apagão” geral devido ao esvaziamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas. No final do primeiro semestre de 2001, um constrangido presidente da República tinha revelado aos seus concidadãos que o governo fora apanhado de surpresa, apesar dos claros sinais que São Pedro já vinha mandando há pelo menos dois verões. Essa imprevidência custou uns 2 pontos percentuais de crescimento do PIB naquele ano e em 2002. O saldo positivo é que a incompetência custou também uma boa soma de votos ao candidato tucano nas eleições presidenciais.

A pior coisa que pode acontecer ao governo Lula é imaginar que essa história não possa se repetir. Não por falta de água, mas por falta de regulação do setor energético e de investimentos. Provavelmente teremos disponibilidade de energia pelos próximos três anos, aproximadamente, porque Deus resolveu nos dar mais uma chance e mandou encher os reservatórios das regiões Norte e Sudeste. Mas este é o tempo certo para correr atrás do prejuízo. Após o “apagão” de FHC, a economia mergulhou, a produção industrial estagnou, minimizando o problema da oferta de energia.

Tivemos recessão em 2003, mas, desde o terceiro trimestre do ano, a produção industrial iniciou uma reação, puxada pelas exportações. O crescimento da economia começou na agricultura e depois foi se espraiando lentamente pelos demais setores. A agropecuária vem mantendo uma expansão vigorosa, graças ao aproveitamento dos avanços tecnológicos obtidos em longos anos de pesquisas da Embrapa, a melhoria das sementes, o desenvolvimento da genética, o aperfeiçoamento dos processos de cultivo e os incentivos do Moderfrota que permitiram a renovação dos equipamentos. A agroindústria é o mais importante fator de crescimento de nossa economia. Ela aumentou a renda e o emprego no Interior do País e está ajudando a resolver o problema do constrangimento externo, pelo vigor de suas exportações. O Brasil se firmou como um fornecedor muito competitivo de alimentos. A indústria nacional voltará a ser altamente competitiva na medida em que avançarmos na remoção das dificuldades de crédito e de natureza tributária. E que não falte energia.

O desenvolvimento vem vindo lentamente, mas já se espalha pelo resto da economia. É um crescimento a cada dia mais vigoroso que deve produzir um aumento de 4% do PIB este ano, sem maiores problemas. Temos dois ou três anos pela frente com recursos disponíveis para continuar crescendo, se não cometermos as mesmas tolices do passado. Só precisamos aproveitar essa janela que o céu nos abriu e nesse curto período tratar de: 1) Melhorar a regulação dos serviços de utilidade pública; 2) Aprovar o estatuto das PPP e voltar a investir fortemente na construção das usinas hidrelétricas para fornecer energia limpa e a custos competitivos; e 3) Recuperar a infraestrutura de transportes (rodoferroviário, portuário, hidroviário) para não deixar morrer o agronegócio. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)

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