Em visita recente a Bauru, efetuada semana passada, o diretor- presidente do Sindicato das Seguradoras, Previdência e Capitalização do Estado de São Paulo (Sindsegsp), Paulo Miguel Marraccini, revelou um dado alarmante: as fraudes representam 30% do total das indenizações pagas pelas companhias do setor no País.
“É um número estimado pela Federação Nacional das Seguradoras (Fenaseg), que demonstra ser este um dos nossos grandes e principais desafios, principalmente no segmento de automóveis”, considera Marraccini.
Segundo o líder sindical, analisar as fraudes é um exercício complexo devido à sua abrangência. “Há desde quadrilhas especializadas para agir ilicitamente contra as seguradoras até as mais brandas e “inocentes” praticadas pelos consumidores comuns”, ressalta o diretor.
E são justamente as “brandas”, conforme Marraccini, as mais comuns. Ele cita que as “modalidades” mais praticadas são as inclusões de avarias inexistentes no acidente e as transferências de responsabilidades nas ocorrências.
Além disso, Marraccini enfatiza que as fraudes acarretam um efeito extremamente indesejável aos segurados honestos: o encarecimento das apólices. “Os preços atuais contemplam uma situação curiosa semelhante ao cachorro que morde o próprio rabo. Influenciado pelas fraudes e pela alta taxa de roubos e furtos, o seguro automotivo não vende porque é caro, atraindo cada vez menos segurados”, sustenta o sindicalista.
Segundo Marraccini, este é um dos fatores responsáveis pelo baixo índice de autos segurados no País - apenas 1/3 da frota nacional - estimada em aproximadamente 27 milhões - é coberta pelas companhias. “Temos de abranger esta outra parte sem seguro, o que só conseguiremos se o preço, as fraudes e os roubos diminuirem”, ressalta.
Só o impacto da redução das fraudes traria novo “fôlego” ao setor, garante o diretor do Sindsegsp. “Um estudo desenvolvido pelo vice-presidente do sindicato, Marcelo Blay, apontou que, se diminuíssemos esses crimes de 30% para 10%, agregaríamos entre 2 milhões e 3 milhões de novos consumidores no mercado e reduziríamos o preço das apólices em até 20%”, frisa.
A queda dos índices de roubos e furtos de automóveis também daria grande impulso ao segmento, conforme Marraccini. “Dentro da sinistralidade de veículos, a parte correspondente ao roubo atinge 1/3 no País, enquanto na Europa chegam a apenas 2%. Por isso, reduzi-los poderia gerar um efeito positivo nos valores dos seguros semelhante aos obtidos com as fraudes”, diz.
Segundo Marraccini, o Sindsegsp e a Fenaseg tem feito seu papel para coibi-los. “Adotamos um plano integrado de combate às fraude com várias ações. Uma delas, de fundamental importância, foi a criação de um banco de dados para cadastrar e verificar todos os veículos sinistrados no País”, revela.
Outros procedimentos preventivos adotados foram o estabelecimento de melhores critérios para a elaboração do perfil do consumidor e, principalmente, o desenvolvimento de estratégias educacionais.
“Estas visam divulgar à população a idéia de que, quando se frauda, prejudica-se o sistema como um todo. O seguro é um organismo mutualista que se você aumenta o preço porque está pedindo uma cobertura de algo que não estava previsto, certamente estará influenciando negativamente o conjunto segurador”, analisa Marraccini.
Para o diretor do Sindsegsp, é preciso conscientizar a população que a fraude é um ato ilícito e que deve-se agir de maneira ética. Nesse sentido, ele destaca que o corretor tem papel fundamental. “Por mais que as seguradoras precavenham-se, nada substitui o risco moral, que quem mais o conhece é este profissional, pois está inserido na realidade do mercado em que atua”, salienta o líder do Sindsegsp.
Otimismo
Ao comentar se o setor sente as conseqüências das fracas vendas de automóveis novos no País, Marraccini faz uma análise otimista. “O mercado de seguros tem uma relação direta com as comercializações de carros zero, cujo aquecimento depende, sobretudo, do crescimento econômico do País. Por isso, alguns indicativos nos fazem alimentar perspectivas animadoras”, afirma.
Ele explica que, em 2003, o cenário do mercado segurador era de estagnação quase total, situação que paulatinamente vem se alterando. “Prova disso é que, entre os meses de maio de 2003 e maio de 2004, o setor cresceu 6% em termos nominais. Ainda não é muito, mas é um sinal de retomada. Por isso, continuo otimista e acho que ainda temos grande potencial de crescimento deste mercado no País”, finaliza o diretor do sindicato das seguradoras.