Já existiram épocas em que ser gordinho era sinal de saúde, mas esse conceito mudou há bastante tempo. O motivo principal é a preocupação com a saúde, pois a obesidade na infância pode levar a sérios problemas na vida adulta e até mesmo na adolescência. Mas não pense que isso é um problema só dos brasileiros, o crescimento da obesidade em todo o mundo tem exigido das pessoas um comportamento mais atento em relação aos cuidados com o corpo.
O que era, aparentemente, apenas uma preocupação com o visual, pois ninguém queria ser chamado de “bola”, se transformou em uma prevenção a problemas circulatórios, cardíacos, de pressão, diabetes tipo 2, dores articulares e até, acreditem, discriminação.
Dá para imaginar que no nosso mundo ainda existe gente capaz de ter preconceito? Até contra os gordinhos? Pois é verdade, e quem já sofreu discriminação sabe muito bem como é chato e triste. Apontar os exageros ou deslizes das outras pessoas é muito mais fácil do que corrigir os seus.
A leitora do JC Criança Carla Maria Ferreira Navarro tem 10 anos e já passou por situações chatas por estar um pouquinho acima do peso. “Uma vez, eu estava de vestido e o meu primo falou que eu parecia um bujãozinho, com a capa. Acho isso muito chato”, comenta.
Carla aprendeu a se defender desses insultos, às vezes ignora e em outros momentos, quando não consegue segurar, revida: “Pelo menos eu posso emagrecer, agora feiura não tem remédio”. Ela tem consciência que está um pouco gordinha e quer perder peso. “Eu não resisto a uma gordurinha na carne, por exemplo, mas sei que quando como em exagero, nasce mais uma gordurinha em mim”, comenta bem-humorada.
Com seus vibrantes olhos verdes, Carla sorri e conta o que tem feito para reduzir o peso. “Eu gosto de jogar vôlei na escola, sei que devo mastigar bastante os alimentos e procuro controlar a boca, mas às vezes é complicado.”
O leitor André Luiz Delgado Fernandes Lima, 12 anos, também já enfrentou muito o mesmo problema da Carla com relação às piadinhas desagradáveis de colegas. “Eu não gosto quando me chamam de gordo”, comenta. Ele acredita que um dos fatores que colaboraram para engordar foi o computador.
“Eu chegava a ficar seis horas direto no computador ou no videogame. Outra coisa são essas casas de jogos... meu máximo foram sete horas direto.” Diante da tela, a única preocupação e jogar e beliscar algumas comidinhas. “Às vezes eu comia chocolate, mas só três”, brinca.
Os refrigerantes também foram bastante cruéis para André, que percebeu que estava ganhando peso e resolveu fazer uma dieta com acompanhamento médico. “Já emagreci dois quilos e também cresci. Além de mudar os hábitos alimentares, comecei a praticar mais esportes”, ensina. Ele futebol, basquete e tênis são os seus preferidos.
Outra sugestão do André é a observação das embalagens. “Hoje tenho o hábito de ver quantas calorias tem em cada alimento e procuro controlar. Também optei por comer mais frutas, quando bate uma fome.” Além disso, André substituiu o açúcar pelo adoçante, tira o miolo do pão ou consome pão light, integral ou com centeio, pois têm bastante fibras.
Mas o maior estímulo para o André decidir atingir seu peso ideal até o final do ano foi a mudança que já percebeu. “Quando você começa a emagrecer, dá vontade de continuar. É um grande estímulo. Sabe, as pessoas não valorizam os gordos, além das doenças, como diabetes”, acrescenta.
André dá a receita: “Não dó nada! É preciso fazer algum esporte, andar de bicicleta, caminhar, ter fé, esperança e força de vontade”, finaliza.
Nem sempre foi assim
A endocrinologista infantil Maria Cristina Crês explica que a obesidade tornou-se um problema mundial recentemente. “A população mudou de hábitos, principalmente em função da influência dos países ditos desenvolvidos, como ‘fast food’e ‘disques’”, comenta.
Os alimentos saudáveis foram sendo substituídos por refeições rápidas e ricas em carboidratos e gorduras. Além disso, a médica aponta a tecnologia como aliada da obesidade.
“Hoje as pessoas não se movimentam. Fazem tudo de carro, usam o controle remoto, o telefone... Antigamente, para falar com a vizinha a pessoa tinha que ir até a casa dela. O carro não era tão usado. Além das pessoas, principalmente as crianças, passarem horas diante da televisão sendo bombardeadas por uma série de propagandas de produtos alimentícios”, acrescenta.
Ficar parado grudado no videogame, no computador e ter preguiça de ir a qualquer lugar a pé ajuda a ganhar peso. Isso porque a energia consumida pelos alimentos não é usada em sua totalidade e aí o nosso organismo faz uma reserva, pronto, chegou a gordurinha. “As pessoas comem mais e gastam menos energia.”
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Mudanças de hábitos
Praticar um esporte é uma excelente forma de queimar calorias e, conseqüentemente, perder peso. Porém, a médica Maria Cristina Crês sugere que a pessoa escolha atividades que têm afinidade. “Falar para uma criança que ela tem que fazer caminhadas pode parecer chato. É preciso importante fazer o que gosta. Caminhar para paquerar é diferente”, brinca.
Ela sugere uma mudança de hábitos, o que deve acontecer em toda a família. “Normalmente, a obesidade do jovem começa na família. O consumo exagerado de lanches, pizzas, bolachas recheadas, frituras. Se os pais não consomem verduras e frutas, como exigir que os filhos comam? E quem compra os refrigerantes que substituíram os sucos e frutas?”, questiona.
Maria Cristina alerta também para a necessidade de se fazer seis refeições diárias, tranqüilas e garantir uma mastigação correta. “A mastigação é fundamental no processo digestivo, pois vai quebrar e misturar os alimentos com as enzimas da saliva. Quando chega no estômago o processo já está iniciado”, explica.
“Alimentação não é prêmio nem castigo, é uma necessidade. Muitos pais tentam suprir o tempo que passam longe dos filhos atendendo suas vontades, liberando tudo. As pessoas devem incorporar novos hábitos mais saudáveis. Evite elevadores e suba pelas escadas, ande a pé. Esconda seu controle remoto, tire a corda do armário.” Movimente-se!