É uma coisa inexplicável. Toda vez que leio a retórica petista sobre fatos políticos, me dá uma fome... Sinto vontade de mandar às favas o meu regime pobre de proteínas e carboidratos que o médico recomendou. O Lula disse outro dia, com postura de quem descobriu a América, que “em eleição há aqueles que criticam e aqueles que defendem”. Para criticar os adversários em tempo de eleição perorou irritado: “Ainda tem muita gente no País que não se conforma pelo fato de ter perdido o poder, conquistado desde que Cabral chegou...” Pena que ele perdeu a oportunidade de revelar que partido foi esse que desde o descobrimento se instalou no poder até o Lula-lá.
Os agregados do PT também não ficam atrás. As explicações do presidente do Banco do Brasil Cássio Casseb sobre a compra de 70 mil ingressos para o show da dupla Zezé di Carmo e Luciano também foram de cabo de esquadra. Ele não sabia que os ingressos eram para um espetáculo destinado a angariar fundos para a compra de um prédio de 14 andares para sede do partido, a um custo de R$15 milhões. Chico Alencar, um dos líderes da esquerda petista diz que “sofremos uma crise de paradigmas”, no que foi contestado pelo seu presidente José Genoíno: “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ah, bom! Os repórteres perguntavam sobre o patrocínio de R$ 5 milhões que o BB negociava com a mesma dupla sertaneja.
Foi assim que entrei correndo num tradicional restaurante do Centro velho de São Paulo com o estômago na boca. Bati os olhos no cardápio - Filé à Martha Rocha. É esse! Só pode ser esse! Automaticamente, fiz uma leitura semiótica. Martha Rocha foi segundo lugar no concurso de Miss Universo, no tempo em que se lia Saint Exupèry. Perdeu porque tinha duas polegadas a mais nos quadris em relação aos seios. O filé, se inspirado na beldade que apaixonou os brasileiros, deveria também ser farto e macio. As coisas estão repletas de significados embutidos. Afinal, como bem disse Caetano Veloso numa das suas canções, “a gente não sabe nunca ao certo onde colocar o desejo”. Comer também tem alusões sexuais. O proprietário do restaurante, com certeza, objetivou um sucesso implícito para o seu prato. Se o freguês pensar em “comer” e em “Martha Rocha” ao mesmo tempo vai pedir ao garçom que traga rápido a iguaria, de preferência em carne e osso, mesmo que o filé não o tenha.
Ainda recentemente numa festa de Iemanjá, em Salvador, no Rio Vermelho, vi Martha Rocha já velhinha mais ainda ostentando resquícios de beleza. Toda de branco e saia rodada não me foi possível perceber se as duas polegadas realmente existiam. Mas devia ter sido, realmente, uma bela figura... Reparem que a Bíblia usa de metáforas para informar quem comeu quem. No Gênesis 4,1 está escrito: “Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela deu à luz Caim”. Imagine nos tempos bíblicos o perigo de se dizer a uma mulher: “Prazer em conhecê-la”. Em Maceió, existe um restaurante na Ponta Verde que serve filé à Pero (Fernandes) Sardinha. Lembram-se dele? Foi aquele bispo que estava a caminho de Portugal com a missão específica de delatar a João III os padres jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, acusados de mimar muito a população indígena. A nau em que viajava naufragou nas costas de Alagoas e os índios comeram o Sardinha. Também, quem mandou ter esse nome...
Meu filé à Martha Rocha foi uma decepção. Bifinho mirrado com um ovo em cima e guarnição de batatas fritas. No tempo em que o Cláudio Amantini era concessionários dos carros restaurantes da Noroeste, esse prato era chamado de filé à Camões, justamente por ter um olho só representado pela gema de um único ovo estrelado. Antes de embarcar no ônibus, comprei outro jornal. Desses de leitura rápida pela falta de contexto. Logo na manchete: “Lula frita presidente do Banco Central”. No restaurante da rodovia, pedi um sanduíche para completar o vazio deixado pelo Martha Rocha. “Misto quente especial” - diz o letreiro. Pergunto o que há de especial nesse lanche, além do preço maior. E a moça responde com um sorriso brejeiro: “Uma folhinha de alface”. Enquanto mastigo, reflito sobre o triunfo da metáfora no mundo de hoje. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)