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Questão de valor


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Devido às disparidades econômicas do País, o cidadão brasileiro vive na defensiva e procura encontrar saídas em um cenário econômico deficiente. O papel da imprensa, que fez diferença em momentos cruciais da história, é o de orientar o público nessa empreitada. A prática do jornalismo econômico e suas dificuldades em repassar a informação, de forma clara e abrangente, enfrenta vários obstáculos, desde a formação do jornalista até falhas nos procedimentos básicos para a construção da notícia. Ao iniciar os procedimentos de apuração e verificação, o jornalista que cobre economia não se preocupa com a pluralidade de versões que deve estar contida na matéria. Não acessa fontes que tenham opiniões contrárias e favorece fontes oficiais em relação a sindicatos, trabalhadores e consumidores.

Além disso, a linguagem repleta de termos específicos e jargões econômicos, voltada a intelectuais, analistas, banqueiros e economistas, impede que parcela significativa da população compreenda os processos que envolvem a economia brasileira. Talvez, a corrida pela notícia origine alguns deslizes que agravam a situação do jornalismo econômico. A complexidade da economia e a dificuldade que grande parte dos jornalistas sente nesta cobertura dão margem à falta de criatividade e clareza no texto.

No jornalismo econômico praticado nos jornais de grande circulação, são raras as matérias que abordam as condições de vida, as necessidades financeiras e os impactos sofridos pelo cidadão comum com a instabilidade econômica. Nas matérias que abordam o contexto da instabilidade dos juros, a cobertura midiática que antecede as reuniões do Copom é marcada pela opinião de analistas, investidores, economistas-chefes de bancos privados e empresários que contextualizam a tensão pré-decisão Copom. Os jornais trazem, quando muito, informações sobre o consumidor e não para o consumidor.

Até mesmo os assuntos que ganham espaço nos veículos, não incluem o cidadão comum em suas análises e não dão oportunidade de entendimento, já que a linguagem do texto é voltada para o público segmentado. Uma notícia recheada por dados estatísticos, termos específicos, números e porcentagens chega ao grande público codificada em linguagem científica e acaba transformando o fato noticioso em um mito que não pode ser alcançado pelo entendimento do leitor.

Este fato está ligado ao despreparo do jornalista em entender o fenômeno econômico que se propõe reportar ou analisar. A linguagem se constitui por quem a formula e envolve todo o conhecimento da pessoa em relação ao fato. A clareza de raciocínio é necessária para se obter a clareza da linguagem, caso contrário o texto se torna ininteligível. O jornalista que não tem conhecimento sobre o fato que está cobrindo passa a informação conforme recebeu de suas fontes. Deste problema surgiu o “economês”.

Além de não compreender os termos do “economês”, os jornalistas procuram agradar as próprias fontes e agradar as próprias fontes é também esconder a incompreensão dos jornalistas com os termos técnicos e, devido ao despreparo, o repórter acaba sendo um gravador e não reflete sobre o assunto. É assim que parte expressiva dos jornalistas econômicos repassa o pensamento único da elite dominante, ausentando entendimento do assunto, embasamento teórico, consciência crítica e suporte técnico de investigação.

A formação jornalística não tem e não deve ter o objetivo de dominar a ciência, no caso, a economia. Sua função é mediar os acontecimentos desta área para fornecer ambiente mais familiar ao público. O olhar do cidadão é o alvo do jornalista, e por este motivo o jornalismo deve ser o condutor para que o cidadão possa tirar suas próprias conclusões acerca da realidade que está inserido. Este assunto deve ser tratado de maneira a desmistificar a área e abordar um outro lado da economia, o social.

A autora, Maria Fernanda de Almeida Ribeiro, é jornalista - MTb 41.047.

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