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Formação limita trabalho a deficientes

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

A inclusão de portadores de necessidades especiais no mercado de trabalho vem ganhando espaço nos últimos anos, mas ainda está muito aquém do ideal proposto pela legislação. Mesmo com a reserva de postos de trabalho garantida por lei e a estimativa de que o número de vagas disponíveis em Bauru e região passaria de mil, a falta de formação e qualificação é o maior empecilho para a contratação dos deficientes que buscam emprego.

A legislação federal e o Ministério da Previdência e Assistência Social regulamentam que todas as empresas com mais de 100 funcionários devem ter portadores de necessidades especiais em seu quadro. A subdelegacia de Bauru do Ministério do Trabalho tem uma relação de 432 empresas locais e de Lençóis Paulista que se enquadram na regulamentação. No entanto, apenas 58 foram fiscalizadas nos últimos meses e somente 18 estavam em situação regularizada.

O chefe da fiscalização da subdelegacia de Bauru do Ministério do Trabalho, Silvano Motta Pereira, estima que haja pelo menos 1.500 vagas garantidas nas empresas, pela reserva de cotas, para os portadores de deficiências. “Pelas fiscalizações que já realizamos neste ano, a quantidade de portadores de deficiência a serem admitidos até setembro é de 156. Mas vamos continuar com as ações fiscalizadoras até o final do ano para ampliar esse número”, diz. Ainda não há dados do número de deficientes já empregados.

Na opinião de Pereira e de Márcia Pompermayer de Freitas, advogada da União, a principal dificuldade na inclusão do deficiente no mercado de trabalho é a falta de qualificação desse profissional. “O problema não é a deficiência, mas a falta de formação. Muitas vezes, aquela pessoa teria condições de ocupar uma vaga perfeitamente, mas não pode. Por isso temos mais vagas do que pessoas para preencher”, afirma Márcia.

Pereira ressalta que muitos portadores de deficiência não conseguem se adaptar às escolas e nem chegam a terminar o ensino fundamental. “Não há professores e escolas suficientes treinados para acompanhar esses alunos”, ressalta. Segundo o chefe da fiscalização, as empresas que desejam obter certificados de qualidade, como o ISO 9.000, devem ter apenas todos os seus funcionários com ensino médio completo. “O deficiente que não conseguiu ter acesso a uma escola e terminar sua formação perde sua chance”, lamenta.

Avanços

Para tentar resolver essa situação, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) colocar em funcionamento de seu Centro Profissionalizante, onde portadores de diversas necessidades especiais podem participar de cursos e qualificar-se para o mercado. De acordo com a assistente social Rosa Maria Carrara Orlato, coordenadora do programa de educação profissional da entidade, há vagas para deficientes mentais, auditivos, físicos, visuais e múltiplos.

“Temos 200 usuários participando das etapas de profissionalização. Primeiro fazemos uma investigação dos hábitos e atitudes e depois eles participam do treinamento para cada função”, relata Rosa. Após o treinamento, os alunos ingressam nas empresas como estagiários e, depois do período do contrato, eles podem ser efetivados como funcionários. Já estão empregados 24 alunos e mais seis prestam serviços como estagiários atualmente.

O Centro Profissionalizante conta atualmente com cursos de auxiliar de escritório, auxiliar de cozinha, restauração de móveis, treinamento de garçons, garçonetes e empacotador para supermercado. “Estamos buscando parcerias para desenvolver outros cursos na Apae e também encaminhar nossos alunos para a comunidade”, aponta a coordenadora do programa.

O empacotador Alberto Lauro Simões, 24 anos, foi um dos alunos da Apae que conseguiu uma vaga no mercado. Ele trabalha em um supermercado de Bauru há três anos e se diz satisfeito com o emprego. “Eu fui bem recebido desde o começo, o pessoal sempre me trata bem, inclusive os clientes”, elogia.

O rapaz passou pelo treinamento na entidade e após três anos na função, comenta que seus olhos estão voltados para o futuro. “Eu penso em continuar trabalhando aqui, mas quero ter um cargo melhor. Primeiro ser repositor e depois ir subindo sempre, para ter uma vida melhor”, declara Simões.

Segundo Rosa, uma equipe da Apae acompanha o desenvolvimento dos estagiários e dos funcionários mesmo depois de efetivados nas empresas. “Muitas vezes, existe o preconceito de achar que o deficiente, principalmente o mental, não tem capacidade de desenvolver uma atividade. Com a qualificação e o estágio, eles provam o contrário”, garante.

Luzia Aparecida Alves, 23 anos, também foi encaminhada pela Apae para uma rede de supermercados da cidade e já está contratada há um ano e oito meses. Ela conta que o emprego lhe proporcionou uma experiência diferente de tudo o que já conhecia.

“Antes, eu vivia de outro jeito. Aqui todo mundo tenta se aproximar, fazer amizade. É muito diferente para a gente, que tem um problema e quando a maioria das pessoas tem preconceito. Agora eu trabalho entre amigos”, aponta Luzia.

Ela relembra que já passou por várias situações em que teve de suportar o preconceito de colegas e até mesmo de professores. “Me chamavam de louca e era uma coisa triste na minha vida. Estou melhor, trabalho e deixei tudo isso para trás. Espero poder crescer aqui dentro e subir na vida. Quero sempre crescer!”, finaliza.

Para mais informações sobre o Centro Profissionalizante, a Apae pode ser contatada pelo telefone (14) 3236-1100.

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