Os problemas do homem moderno resultam de duas epidemias características do século 21: a obesidade e o sedentarismo. Foi com essa premissa que o médico cancerologista Drauzio Varella iniciou a palestra “Viva Melhor!” realizada na última quarta-feira na Associação Luso Brasileira de Bauru (AABB).
“O homem moderno não anda mais, nós fazemos tudo usando o automóvel, Grande parte de nosso tempo é gasto apertando botões e temos acesso à alimentação de cinco ou seis mil calorias”, aponta Drauzio. Ele dirigiu, durante 20 anos, o serviço de imunologia do Hospital do Câncer em São Paulo. Na década de 80, iniciou campanhas que visavam esclarecer a população sobre a prevenção à aids através de emissoras de rádio.
Drauzio comandou séries especiais na televisão - entre elas uma sobre grávidas e outra sobre tabagismo. Em 1989, começou um trabalho de pesquisa sobre a prevalência do vírus HIV na população carcerária da Casa de Detenção Carandiru, fato que o incentivou a escrever o best-seller “Estação Carandiru”, vencedor do prêmio Jabuti em 2000. O currículo extenso, sempre ligado à mídia, fez com que ele se tornasse um dos médicos mais populares do País.
“Aproveitando-se” (no bom sentido) dessa fama, Drauzio realiza constantes palestras para alertar a população sobre a importância de se mudar hábitos para conquistar uma melhor qualidade de vida. Para isso, tem a “receita” básica: alimentar-se adequadamente, adotando um cardápio colorido e baseado em muitas verduras, legumes e poucos carboidratos; dormir bem, entre sete ou oito horas diárias; e praticar exercícios físicos de forma regular.
Apesar dessas regras não serem novidade para muitas pessoas, Drauzio salienta que é necessário disciplina e motivação para cuidar do corpo. “Achamos que o corpo foi um presente da natureza e que ele deve nos dar prazer e portanto não temos que nos preocupar. (...) Nosso cérebro adora conforto, é preciso desobedecer essa ordem”, destaca.
Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, o médico falou sobre como incluir práticas saudáveis em uma rotina agitada e a importância de educar as novas gerações para evitar problemas ligados à obesidade e sedentarismo. Confira os principais trechos a seguir.
Jornal da Cidade - O senhor afirma que as três regras básicas para adquirir uma melhor qualidade de vida são dormir e se alimentar de forma adequada e praticar exercícios físicos. Como, efetivamente, mudar hábitos?
Drauzio Varella - Acho que precisa disciplina, não tem outra forma. Primeiro é preciso estar convencido de que isso (mudança de hábitos) é importante, e depois ter disciplina para executar, porque senão a pessoa faz um dia, depois fica uma semana sem fazer e desanima, passa um mês, aí ela começa de novo e pára. Tem de ter disciplina, estar conscientizada de que isso é fundamental. Se ela não se toma esse tipo de decisão, não consegue.
JC - Os distúrbios da ansiedade são considerados doenças da modernidade. Como controlar o estresse do dia-a-dia?
Drauzio - Acho que isso também é uma das coisas que a pessoa precisa do exercício físico para lidar. Primeiro porque o exercício é antiestressante, a pessoa continua tendo os mesmos problemas, mas ela lida com eles de forma mais relaxada. E segundo com atividades de lazer que dependem de cada um. Tem gente que gosta de ouvir música, outros gostam de ir ao cinema ou de visitar um amigo. É preciso achar um espaço na vida para fazer as coisas que deixam as pessoas calmas.
JC - Existem pessoas que preferem dormir até mais tarde nos finais de semana. Esse hábito pode ser considerado uma forma de lazer?
Drauzio - Eu acho um lazer meio idiota, mas isso acontece com freqüência. Às vezes é necessário, porque a pessoa passa a semana inteira dormindo muito mal e no domingo, ela tira para descansar. Mas é uma pena usar o dia que a pessoa tem para ela, dormindo.
JC - Mas o sono também é necessário para repor as energias. Quantas horas de descanso o sr. recomenda?
Drauzio - Não tem uma regra fixa, tem gente que precisa de nove horas. Uma média de sete a oito horas é o que a maioria das pessoas precisa, mas tem gente que dorme seis horas e se sente muito bem. As crianças normalmente precisam de mais tempo de sono, os adolescentes também. Mas à medida que a idade vai passando, vai diminuindo a necessidade de sono. As pessoas de muita idade dormem de cinco a seis horas e isso é suficiente.
JC - Como as pessoas ocupadas demais podem encaixar a atividade física em sua rotina?
Drauzio - Acho que primeiro, para a pessoa muito ocupada, é complicado praticar esportes que exijam equipes. As pessoas muito ocupadas precisam dar preferência a exercícios solitários, como andar, correr e nadar. Segundo, é preciso que a pessoa ache um momento, brigue para conseguir esse tempo. Se a pessoa precisa entrar no trabalho às 6h todos os dias, ela levanta e vai, mesmo que tenha ido a uma festa e dormido às 4h da manhã. A pessoa cumpre isso todo dia, religiosamente, não atrasa nem cinco minutos. Por que ela não consegue fazer isso (atividades físicas) por ela?
JC - Como se alimentar adequadamente durante a correria do dia-a-dia?
Drauzio - Existe muito recurso, tem muita comida por quilo e todos (os restaurantes) têm saladas e legumes variados. Acho que a dieta deve ser sempre colorida, com verduras e legumes. A quantidade de carne não deve ser exagerada e carboidratos como arroz, macarrão, pão e batata devem ser ingeridos em quantidade pequena porque são alimentos muito calóricos.
JC - A obesidade pode ser considerada um dos grandes males do século 21? Como evitar esse problema?
Drauzio - Acho que a obesidade vai ser o principal problema de saúde do século 21. É complicado lidar com esse problema porque isso implica em educação, tem que começar com crianças pequenas, ensinando hábitos saudáveis. Isso implica em ter atividade física. Os magros ainda tudo bem, mas os que geneticamente têm tendência à obesidade, quando não têm atividade física, é muito difícil eles perderem peso.
JC - Os pais adoram quando os filhos “limpam o prato”. Em contrapartida, existe o problema da obesidade. Como fazer as crianças terem um cardápio balanceado? Exigir que as escolas ofereçam produtos mais saudáveis seria uma opção?
Drauzio - Lógico, isso tinha que ser obrigatório nas escolas. Já está começando a haver um movimento nesse sentido. É uma maldade vender uma batata Chips para as crianças, elas adoram. As crianças, hoje, passam um tempo muito longo sentadas em frente à televisão e no computador, é difícil elas brincarem na rua. As cidades estão muito violentas e os pais não deixam. Uma crianças - sedentária, com acesso a esses alimentos altamente calóricos - balas, bombons, chocolates - e ainda propaganda na televisão martelando na cabeça dela o tempo inteiro, provoca um problema de obesidade infantil muito sério.
JC - O que fazer para melhorar a qualidade de vida dos idosos?
Drauzio - Acho que no caso dos idosos é válida a prática de exercícios físicos e é muito importante manter os interesses na vida. Muita gente com idade passa a ter como única diversão assistir televisão e isso é uma interação passiva, não exercita o cérebro e a pessoa começa a ficar meio desinteressante. Os jovens começam a se afastar porque eles não têm outro interesse, só ficam falando do passado e isso os torna cada vez mais solitários. E a solidão é um problema muito sério entre os mais velhos.
JC - Como melhorar a qualidade de vida dos carentes? O sr. acha que programas de assistência promovidos pelo governo, como o Fome Zero, seriam alternativas?
Drauzio - Acho que não se pode deixar ninguém passar fome, mas para interferir, ter um impacto positivo e uma mudança de vida, honestamente, não acredito só nisso. Para mudar a condição de vida dos mais pobres é preciso de muitas medidas, dar escola, educação boa e também é preciso ter menos filho.
JC - Segundo dados demográficos, nos últimos 30 anos, a população cresceu 90 milhões. O sr. acha que o planejamento familiar deveria ser prioridade na saúde pública?
Drauzio - Lógico, deve ser uma política pública séria, é preciso dar para a menina da favela a mesma chance de não engravidar que as outras também têm.
JC - Qual sua avaliação da saúde pública no Brasil?
Drauzio - Eu vejo com otimismo, acho que a saúde pública no Brasil vem melhorando. Comparada há dez anos, hoje está melhor, mas ainda falta muito para se fazer.
JC - O sr. participou da série “Fôlego”, do Fantástico, acompanhando um grupo de pessoas que decidiu parar de fumar. Em sua opinião, como combater as doenças causadas pelo cigarro e pela bebida, já que ambas as drogas são fortemente incentivados por campanhas publicitárias?
Drauzio - Com a contra-propaganda que está acontecendo. Hoje no Brasil só 20% da população fuma, esse número já foi de 50%. Estamos tendo uma diminuição no número de fumantes, acho que isso é fruto de campanhas educativas para se esclarecer principalmente as crianças pequenas, nas escolas.