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Entre o sonho e o pesadelo


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Sou formado em medicina. Minha especialidade é a pediatria. Independentemente de minha profissão, também sou paciente. Muitas vezes, já recorri a médicos e, tantas outras, terei de recorrer. Como médico e paciente, sinto-me duplamente fragilizado por empresas de planos de saúde. A busca do lucro a qualquer custo por parte de várias delas, infelizmente, empurrou a saúde suplementar brasileira para uma crise sem precedentes.

Não era para ser assim. Afinal, quando contratamos um plano, pensamos em garantir uma assistência de qualidade a nós mesmos e a nossos familiares, até com certos confortos adicionais que o sistema público ainda não oferece. Sonhamos com um atendimento de qualidade e disponibilidade de recursos científicos, com bons hospitais, caso tenhamos de utilizá-los, e assim por diante. Este, aliás, é o mundo dos sonhos que as empresas vendem em suas milionárias publicidades nas emissoras de TV. Se esquecermos por um momento do hiato existente entre o que se propagandeia e o que se oferece, é para isso mesmo que a saúde suplementar foi concebida; além de um certo alívio ao SUS ofertado por quem pode (ou podia) pagar.

A realidade, porém, está muito mais para pesadelo. Hoje, os pacientes usuários de planos de saúde não têm acesso aos avanços científicos dos últimos dez anos. As empresas utilizam-se de uma lista referencial de cobertura defasada. Portanto, quem necessita de recursos mais modernos, é obrigado a pagar por eles, além de quitar religiosamente as astronômicas mensalidades.

Para os médicos, toda esta situação é frustrante. Saber que existem recursos importantes, mas que os planos não os disponibilizam para modernizar a qualidade dos tratamentos e para salvar vidas é uma afronta ao exercício da medicina, um atentado contra profissionais que juraram se dedicar integralmente à tarefa de garantir o bem-estar, a integridade física e psicológica de seus próximos. É o que tentam fazer os médicos há 2.500 anos.

O melhor da medicina deve sempre estar disponível para pacientes e médicos. É com esse objetivo, aliás, que nos movimentamos atualmente em São Paulo e no restante do Brasil contra os abusos das intermediadoras da assistência à saúde. Exigimos que a Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) seja adotada pelos planos, pois, com ela, teremos a garantia de uma assistência digna aos usuários.

Temos, médicos e sociedade, de lutar juntos para moralizar a saúde suplementar. É inadmissível que as empresas neguem o que há de melhor para seus associados, é inadmissível que pressionem médicos a reduzir pedidos de exames, de internações e outros procedimentos com objetivos mercantis. É inadmissível que não valorizem o trabalho do profissional de medicina, para os quais, nunca é demais relembrar, não dão reajustes há mais de uma década.

Como médico e paciente, sinto-me desrespeitado, mas não vencido. Muito ao contrário. Estou convicto de que, juntos, teremos a força necessária para neutralizar esses abusos, resgatando, assim, a saúde suplementar brasileira para suas origens assistenciais. Você merece, este é um direito seu!

O autor, Clóvis Francisco Constantino, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

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