Política

Candidatos divergem sobre Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

A primeira fase da apresentação dos candidatos a prefeito de Bauru sobre os diagnósticos da realidade local e as ações de desenvolvimento, no projeto Bauru + 10, mostrou que Estela Almagro (PT), Clodoaldo Gazzetta (PV), Antonio Sérgio Marsola (PPS) e Sandro Luiz Fernandes (PSTU) têm visões divergentes sobre qual deve ser o papel do governo para preparar a cidade para os próximos 10 anos.

Na apresentação de 20 minutos de cada candidato, ficou evidente que o diagnóstico encontra várias semelhanças, mas cada prefeitável tem uma reflexão particular sobre como o modelo de gestão pode interferir para potencializar os resultados.

A discussão do projeto Bauru + 10 com os prefeitáveis foi dividida em duas fases iguais. O segundo bloco de apresentações aconteceu ontem à noite, tendo Tuga Angerami (PDT), Maria Cristina Romão (PCO), Luiz Carlos Valle (PSB) e Caio Coube (PSDB) como convidados.

Antes dos eventos, cada candidato recebeu os projetos apresentados pelos organizadores. O trabalho de levantamento dos problemas e vocações de Bauru contou com a divisão de temáticas específicas em mais de 20 grupos. O projeto foi desenvolvido em uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Bauru e a Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Tripé petista

Estela Almagro (PT) foi a primeira a falar, conforme o sorteio prévio da ordem. A candidata informou que sua coligação, “Amor por Bauru”, criou 19 subcomissões de análise do projeto para posterior inclusão no programa de governo. “Nosso tripé tem infra-estrutura, saúde e desenvolvimento como pontos prioritários. Mas esse tripé está sustentando, antes, na discussão sobre a falta de recursos”, avaliou.

A candidata petista lembrou que o município tem uma dívida que soma o equivalente a um orçamento anual, chegando a mais de R$ 160 milhões. “Então, antes de discutir os projetos, temos que discutir como vamos resolver os problemas financeiros para abrir caminho para viabilizar esses projetos. Temos que perguntar de onde virão os recursos e como vamos fazer”, ponderou.

Segundo Estela, sua aliança defende três bandeiras para a questão local. “Uma é integrar o movimento nacional que está sendo formado para trocar o índice de indexação da dívida municipal. O índice Geral de Preços de Disponibilidade Interna (IGPD-I) é suicida, mas é ele que corrige as dívidas da prefeitura com a União. Vamos trabalhar para trocar o IGPD-I pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos contratos, que é mais justo e corrige pela inflação”, citou.

A segunda bandeira é, segundo Estela, implementar um governo que cobre os créditos da prefeitura junto aos grandes devedores. “O prefeito tem que ter a coragem de cobrar os grandes devedores de impostos”, contou. A terceira bandeira de gestão mencionada pela candidata é o relacionamento político com outras instâncias. “Não podemos isolar Bauru dos governos federal e estadual. Bauru está fora desse cenário e isso a coloca distante das possibilidades de buscar investimentos de grande porte”, defendeu.

Rei sem coroa

Já Clodoaldo Gazzetta (PV) acredita que sua proposta de plano de ação e gestão vai revolucionar o desenho institucional do município. O prefeitável apresentou uma estrutura de governo que pretende tirar os poderes de decisão das mãos do prefeito, passando a decisão das ações para a comunidade.

”Vamos romper com o modelo que está em curso há 30 anos, onde vale mais a caneta do prefeito. O prefeito é um rei sem coroa em nossa proposta”, abordou.

A organização administrativa defendida por Gazzetta prevê a criação de três gerências setoriais que teriam a missão de planejar as políticas públicas locais. O trabalho está centrado em três pontos: desenvolvimento humano, infra-estutura e meio ambiente. “Queremos descentralizar o poder e passar para a comunidade o poder real de decisão as prioridades e como e onde investir”, apontou.

A proposta do PV prevê a criação de um Instituto de Planejamento e Gestão Estratégica (Ipege). “A aplicação da verba pública não pode mais sair da cabeça só do prefeito. Ela precisa passar pelos conselhos social e político, pelos comitês gestores de bairros”, defendeu.

Segundo ele, as ações serão determinadas pelo acompanhamento de indicadores sociais fiéis. “O sistema atual não tem dados consistentes e seguros. Bauru não conhece Bauru. Precisamos de um diagnóstico real da cidade para a estrutura funcionar”, disse.

Na sua proposta, o prefeito será só o gestor, mas não aquele que decide onde os recursos serão aplicados. “O sistema atual não permite integração entre as diferentes áreas. O rei fica com a coroa e a caneta o tempo todo. Vamos exonerar todos os cargos de confiança e investir na mão-de-obra pública com o recurso economizado com o salários dos comissionados”, contou.

Plano adotado

O candidato a prefeito Antonio Sérgio Marsola (PPS) informou que seu plano de governo está baseado nas diretrizes apresentadas pelo projeto Bauru + 10. “Este projeto de desenvolvimento da cidade pelos próximos 10 anos será incorporado pelo meu governo. É um plano que vem discutindo as vocações e os diagnósticos locais há mais de dois anos”, discursou.

Em sua avaliação, o projeto Bauru + 10, iniciado em dezembro de 2002, já traz o diagnóstico e as propostas de ação. “Se eleito, vou chamar os coordenadores do Bauru + 10 para o planejamento das ações de implementação”, reforçou. Marsola destacou que Bauru tem logística privilegiada e, como centro regional, tem que alimentar suas potencialidades. “Isso passa por projetos como o aeroporto, a hidrovia, o gasoduto. Não dá para discutir nossa vocação para o futuro sem levar em conta esses pontos”, sinalizou.

Marsola também falou da necessidade de correções na área de infra-estrutura. “A população reclama por asfalto. Ao longo do tempo, pouco se fez para recuperação a malha de oito milhões de metros quadrados. Quatro milhões de metros quadrados de asfalto estão em situação deplorável”, avaliou.

Segundo ele, não é impossível recuperar as ruas. “A usina de asfalto foi recuperada neste governo e produz 200 toneladas/dia. Mas a usina pode trabalhar de forma mais intensa. Vamos priorizar isso”, mencionou.

Na avaliação do candidato pela coligação “Respeito por Bauru”, a dívida de cerca de R$ 160 milhões não é um desafio sem solução. “Não é um problema intransponível, porque a maior parte desse débito está equacionado para ser pago em até 30 anos”, apontou. Ele prometeu realizar uma reforma administrativa para reduzir a máquina, buscar recursos em outras esferas de governo e ouvir a população com a criação de uma Central de Atendimento.

Visão socialista

O candidato a prefeito Sandro Luiz Fernandes (PSTU) foi o último a se apresentar durante os 20 minutos previstos pela organização do projeto Bauru + 10. “Estamos avaliando os diagnósticos feitos pelo projeto Bauru + 10. Mas a visão do PSTU é de que nada vai mudar se não houver uma transformação radical na forma de governar, com a priorização do trabalhador, que é vítima do sistema de exclusão social vigente”, abordou.

Para Sandro, a saúde pública está muito mal, a infra-estrutura é carente e os sintomas na gestão municipal são de caos. “Há uma ameaça real de fechamento dos postos de saúde nos bairros, faltam pediatras e o atendimento é precários em muitos bairros. O transporte coletivo acumula uma dívida crescente e milionária, um sistema deficitário”, exemplificou.

Em sua opinião, o plano de gestão carece de mudanças profundas. “Uma coisa é discutir problemas com pequenos grupos e outra é ouvir a periferia. Sem romper com essa lógica capitalista não há mudança”, pregou Sandro.

Ele também voltou a criticar os efeitos da instituição da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no país. “Foi uma lei que não veio preocupada com a corrupção, como alardearam, porque a corrupção não estancou. Foi uma lei que veio para cumprir os objetivos do Fundo Monetário Internacional (FMI) de forçar o Poder Público a segurar receitas para pagar os juros da dívida externa. Tudo a um custo social enorme”, criticou.

Fernandes defendeu que seu plano inclui a suspensão dos pagamentos das dívidas municipais já nos primeiros dias de governo. “Vamos fazer uma auditoria nas contas e só voltaremos a discutir os débitos depois dessa auditoria concluída”, afirmou. Ele defendeu a eliminação dos cargos de confiança e criticou as ações do governo Lula (PT) que, segundo Fernandes, iludiu a população.

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