Surpresas fantásticas ocorrem no governo Lula da Silva. Depois que Duda Mendonça assumiu o comando do debate teórico do partido, a primeira e original surpresa foi saber que idéias e propostas históricas do partido tinham sido incineradas. Princípios éticos e morais foram arquivados. Os ditames do poder e o controle da opinião pública passaram a ser o horizonte teórico das preocupações dos militantes. Com Duda Mendonça no comando do esforço de produção de hegemonia, reforçaram-se as formas simbólicas da dominação. A violência da manipulação ganha espaço sobre a violência da coerção. Tremenda fragilidade da nossa vida democrática.
Neste cenário pretensamente moderno, saltam, na frente do palco, personagens recolhidos nos recônditos do Planalto e no submundo do partido. Arrufos autoritários são bafejados sobre a sociedade. Acredito que brotam do passado. Renascem das cinzas da história. Alguém, no ar seco e sufocante de Brasília, sonha com o velho companheiro, Leãozinho Trotsky, como cantava a Libelu. O revolucionário, que babava autoritarismo, retorna para atormentar o sono dos vivos. Aparece como imenso pesadelo. Trotsky de braço dado com o velho companheiro, José Stalin. Tornaram inimigos à morte nas disputas pelo poder.
Surpresas sucedem neste Brasil, tão complexo e com tanta diferenciação social e regional. Brasil, que realiza esforço inaudito para consolidar a vida democrática. Foram 20 meses de política econômica ortodoxa. Assistimos a espetáculos variados de desavenças no seio do poder. Os infortúnios dos Waldomiros e dos Delúbios afrontaram o país. A inoperância dos ministros continua a assustar. O arquivamento de políticas sociais ruge nas facções da esquerda. Muita, mas muita conversa mole, cansa a paciência da inteligência nacional...
O governo tem a genial idéia de enviar ao Congresso projeto de Lei criando o Conselho Federal de Jornalismo. Gesto herdeiro da tradição autoritária do esquerdismo, aliado à tradição do corporativismo, herdado do estado burocrático colonial. Águas arcaicas banhadas por lideranças petistas...
A bronca nacional geral. Otávio Frias: “Tudo faz parte de um movimento, cujo objetivo é emperrar o sistema de freios e contrapesos que está no cerne da democracia. Daí esforços para intimidar a Justiça, enquadrar o Ministério Público e, agora “disciplinar” a imprensa”. Carlos Heitor Cony: “O conselho de Jornalismo agora proposto é letal. Procura ensinar, exercer uma didática para a qual não terá competência técnica nem mandato legal. O País tem uma Constituição, tem leis que regulamentam e punem abusos da mídia. Certas ou erradas, elas estão em vigor e, volta e meia, um órgão ou um profissional paga o pato, nem sempre merecidamente”. Fernando Gabeira: “Tenho 45 anos de profissão. Cobri guerras e entrevistei todo tipo de gente. Gostaria muito de saber em que os conselheiros do PT poderão orientar”. Ao protesto, somaram-se vozes do Judiciário e do Ministério Público. O Presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edison Vidigal, que já foi jornalista, sentencia: “Qualquer tentativa que possa configurar o cerceamento, quer na busca da informação quer no repasse das informações à sociedade, é inconstitucional. Não há porque ser considerado, não merece nem discussão”.
Quem defende o projeto? A Federação Nacional dos Jornalistas, órgão de classe petista; o guru, zen-marxista, Luiz Gushiken; o especialista em velhinhos aposentados, Ricardo Berzoini e Ricardo Kotscho, Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República. É só Lula ficar feliz como pinto no lixo, pra companheirada pisar na bola!...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.