A imprensa descobriu, no início dos anos 90, o jornalismo denunciatório, depois de passar por outras “descobertas” como o jornalismo econômico, o jornalismo crítico e o jornalismo de serviços. Agora, só falta a imprensa se descobrir. Ibrahim Sued dizia que o jornalista é forte e poderoso não pelo bem que ele faz, mas pelo mal que pode fazer. Discordo do falecido colunista social apenas quanto ao sujeito. Na verdade, quem é forte é o meio. “O meio é a mensagem”. Não existe liberdade de imprensa, mas liberdade de empresa, como ensina o velho Alberto Dines. Isso explica a razão desse bombardeio todo dos grandes meios de comunicação ao projeto de lei que prevê a criação do Conselho Federal de Jornalismo, uma idéia velha, de 20 anos, e completamente inócua, defendida pelos próprios jornalistas com finalidades meramente corporativas. O governo entrou de gaiato. Lula cometeu a burrice (mais uma) de encaminhar o projeto ao Congresso, a pedido da Federação Nacional dos Jornalistas, num momento em que permanecem na superfície vários casos escandalosos como o de Waldomiro Diniz, e ainda é recente a tentativa de expulsar o correspondente do Times, Larry Rother. Figuras importantes da República, grandes nomes da política, da indústria e donos de bancos estão na lista dos que remeteram US$ 30 bilhões para o Exterior sem dar satisfações ao Imposto de Renda. E a chamada “grande imprensa”, endividada, luta para sobreviver com as calças na mão (...)
Temos leis em número suficiente para serem descumpridas. A começar pela própria Constituição. Lá, está escrito que “nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade da informação jornalística (...)”. Infelizmente, sempre aparece quem pretenda embaraçar essa liberdade. Há um projeto no Congresso que define até o “traje dos jornalistas no exercício profissional”.
Várias das tentativas que se fazem há anos para alterar - sempre para pior - a atual lei de imprensa são mais autoritárias que a lei em vigor, votada no governo Castelo Branco. Mais do que autoritarismo, deixam transparecer um velado ressentimento contra a imprensa. É como se desejassem punir a imprensa por ser o espelho daquilo que a Nação é. Na verdade, o que se pretende, de fato, é silenciar as críticas ao comportamento de parlamentares e governantes.
É verdade que a imprensa comete injustiças. De vez em quando, ocorre o que os juristas chamam de “aberratio ictus” - a prática resulta contrariamente às intenções do agente. No afã de combater a corrupção magoa-se um inocente. Mas isso é raro. Na grande maioria das vezes, o alvo correto é atingido. O acusado é corrupto mesmo.
Novamente é preciso rever a história do pensamento para entender a liberdade de expressão. Ela está muitos furos acima de interesses empresariais e corporativos. Thomas Jefferson (1743-1826), com as qualificações de ter sido um dos primeiros presidentes dos Estados Unidos afirmou que, se lhe coubesse decidir entre um governo sem jornais ou jornais sem governo, não hesitaria em preferir a última alternativa. Ou, como diria o mineiro: a imprensa é ruim mas é boa. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)