Muita gente famosa na arte de fabricar facas artesanais já morou na região de Bauru. Um deles é Peter Hammer. Ele foi o cuteleiro que confeccionou as facas usadas na série “A Muralha”, exibida pela Rede Globo. Profissional de alta qualidade, ele fabricou facas em Bauru e foi o professor de muitos artesãos do aço na região. Atualmente, ele mora em Itapecerica da Serra, mas seus discípulos continuam na região. Genésio de Bem Neto é um deles.
A história desse cuteleiro de Agudos (18 quilômetros a sudeste de Bauru) é um tanto curiosa. Ele passou 18 anos fazendo prótese dentária. Em 1985, fabricou sua primeira faca de maneira muito rudimentar. “Não conseguia aprimorar”, lembra.
Acostumado a freqüentar os rios da região para pescar, ele precisou de uma faca utilitária e procurou Peter Hammer. “Fui comprar uma faca e acabei me matriculando no curso dele. Durante o curso, fabriquei uma faca e acabei ficando por lá mais cinco meses e confeccionando 20 peças”, comenta.
Entusiasmado com a arte, Bem Neto montou uma pequena fábrica de facas no seu local de trabalho na área de prótese. “Era o laboratório e a oficina. Chegou num ponto que tive que optar. Nem pensei duas vezes: escolhi a oficina de cuteleiro”, frisa.
O trabalho do artesão é feito sob encomenda. “Percebi com o tempo que o cliente, especialmente o colecionador, não quer o produto pronto somente, quer exclusividade, o seu modelo.”
Antes de perceber isso, o artesão participou de uma exposição em São Paulo que reuniu vários cuteleiros de todo o País. “Eu fabriquei oito peças e só vendi uma. Observei que as peças únicas ganhavam mais valor e eram as mais procuradas.”
A faca mais interessante criada por ele é uma destinada à sobrevivência na selva. “Dentro do cabo dela tem um isqueiro. Com uma faca e um isqueiro, ninguém morre na selva. Com a arma é possível caçar e com, o fogo, cozinhar a caça. É possível construir um abrigo e fazer fogo para se aquecer do frio.”
Garantia ilimitada
Já como cuteleiro profissional, Bem Neto partiu para a pesquisa de modelos de lâminas, aços e empunhaduras. “Uso aço de Minas Gerais. Adquiro o produto de uma empresa confiável que envia inclusive o raio-x da mercadoria, com certificado. O laudo acompanha o produto.”
A qualidade do aço usado nas peças é fator de diferenciação do produto, explica o cuteleiro. “O aço para cutelaria precisa ter em sua composição química o carbono. O melhor tem o teor de 0,9% de carbono. Como eu uso uma matéria-prima garantida, posso oferecer garantia ilimitada para os meus clientes.”
A garantia ilimitada significa que mesmo após anos de uso, se a faca perder o corte ou quebrar, o cuteleiro oferece o serviço gratuito. “A faca tem que apresentar o problema sendo usada para o fim que foi destinada. Por exemplo, uma picanheira tem que estar sem corte para cortar picanha ou quebrar quando está sendo usada com essa carne.”
Se a peça quebrar, ele fornece outra. Se perder o corte, ele faz outro. “Isso porque sei da qualidade do produto que fabrico. O que o cliente tem que saber é que uma faca para carne não pode ser usada na madeira, por exemplo.”
Suas peças têm preços que variam de R$ 80,00 a R$ 1.500,00. “Eu já fabriquei mais de 100 peças. Hoje vivo disso e tenho facas vendidas para pessoas do Recife, Rio Grande do Sul, Rondônia etc.”
A escolha do material para fabricar a empunhadura da faca é outro trabalho minusioso para Genésio de Bem Neto. “Uso chifre de cervo europeu e sambar (veado indiano), porque ele tem paredes pouco porosas”, explica.
Os fornecedores, além dos europeus, são argentinos e até brasileiros. “Quando uso madeira, meus fornecedores são os argentinos e brasileiros. Uso muito a caviúna e braúna.”
Os cabos das facas fabricadas pelo artesão podem ter um toque pessoal do cliente. “O cliente pode ter um pedaço de osso, madeira ou outro material e sonhar fazer com aquilo um cabo de faca. Ele pode trazer o material que eu estudo a possibilidade e faço uma faca para encaixar nesse produto.”