“Brasileiro tem memória sim, mas a tendência é sufocá-la e substituí-la por uma outra versão, construída e legitimada pelas elites”, afirma o professor da Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Claudio Bertolli Filho, no parágrafo inicial do prefácio de “Nos Trilhos da Memória: Trabalho e Sentimento - História de Vida de Ferroviários da Companhia Paulista e Fepasa”.
A frase aponta uma dura realidade que, felizmente, não se repete na obra que será lançada hoje, às 20h, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. Coordenado pelo também professor da Unesp Célio José Losnak, o livro conta a história da ferrovia através dos depoimentos de ferroviários aposentados, um feito inédito.
“O que existe atualmente sobre ferrovias foi elaborado sob a perspectiva institucional ou de transportes, o que é importante, mas faltava divulgar a história da ferrovia a partir da memória dos ferroviários”, defende Losnak, segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), que edita o livro juntamente com a Unesp e o projeto Ferrovia Para Todos.
Foram mais de dois anos de pesquisa e entrevistas com cerca de 40 ex-ferroviários. Para compor o livro foram escolhidos 12 depoimentos, mas todo material colhido foi transcrito e fará parte do Acervo de Memória Oral que será criado pela prefeitura.
Para a realização da pesquisa, estagiários da SMC, funcionários e bolsistas da Unesp buscaram entre os muitos aposentados, pessoas dispostas a contar suas vidas e suas trajetórias dentro da Cia. Paulista.
De acordo com Célio Losnak, houve a preocupação em buscar diversidade de perfis que representasse toda a heterogeneidade da categoria ferroviária, como cargos, nível sócio-cultural, perfil ideológico, entre outros itens. “Nossa preocupação não era com a quantidade, mas, sim, em aproximarmo-nos da diversidade que compunha esse universo ferroviário”, explica o coordenador.
O livro tem uma tiragem de mil exemplares, que será distribuída em escolas, bibliotecas e entre os ferroviários. O restante ficará disponível para venda.
“Acreditamos que haverá saída, em razão de, além dos ferroviários, existe uma comunidade apaixonada pelas ferrovias”, afirma Roberta Mathias, diretora de pesquisa e documentação da SMC e coordenadora do projeto Ferrovia Para Todos. “O livro é muito importante pra resgatar junto à comunidade a importância do passado ferroviário para o município de Bauru”, diz.
Iniciado efetivamente em 2001, o Ferrovia Para Todos desenvolve um programa no setor ferroviário, que envolve a questão do patrimônio histórico-cultural e a história ferroviária do município. O objetivo é envolver a sociedade bauruense para que a ferrovia seja vista e entendida como parte fundamental na formação da identidade cultural de Bauru.
Além da preservação da memória oral dos ferroviários, o projeto pretende restaurar composições ferroviárias. Já foram recuperados uma maria-fumaça, um carro de passageiros e outro carro-dormitório por meio da união entre poder público, ferroviários aposentados e iniciativa privada. Ainda faltam restaurar um carro-restaurante, um carro bagagem/correio e mais três carros dormitórios.
• Serviço
Lançamento do livro “Nos Trilhos da Memória: Trabalho e Sentimento - História de Vida de Ferroviários da Companhia Paulista e Fepasa”, hoje, às 20h, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. Entrada gratuita. Realização: SMC e Unesp. Apoio: Jornal da Cidade e Novoeste. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 3235-1072.