Cultura

Homero cita esportes ainda praticados

Por Cristina Rodrigues Franciscato* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

Segundo outras fontes, teria sido Héracles que, mais tarde, durante a realização de um dos seus Doze Trabalhos, teria instituído os Jogos em Olímpia. Quando Augias era rei da Élide, Héracles veio limpar seus estábulos, mas o rei não pagou o combinado. Héracles atacou Augias e depois de vencê-lo realizou jogos em homenagem a Zeus. Dizem também que Héracles instituiu os jogos em homenagem a Pélops, seu ancestral (uma das filhas de Pélops foi avó do herói). Seja como for, evidências arqueológicas revelam que o primeiro culto existente no santuário de Olímpia data do primeiro milênio a.C. e era dedicado a Pélops.

A hipótese da origem dos jogos a partir de práticas fúnebres é fortalecida por Homero, nossa fonte literária mais antiga para os mitos gregos. No canto XXIII da “Ilíada”, Aquiles organiza Jogos suntuosos em honra de seu amigo Pátroclo, morto na Guerra de Tróia. Na “Ilíada” todos os chefes gregos competem, inclusive Agamêmnon, “rei dos reis”. No mundo homérico, os heróis, além de cultivarem a excelência guerreira, são também atletas que desejam ser sempre os melhores, superando os demais. O espírito competitivo e a tentativa sobre-humana para realizar feitos incomuns são temas recorrentes nos mitos e nos anseios do homem grego.

Em Homero encontramos várias modalidades de jogos: corrida de carros, luta, pugilismo, corrida pedestre, arco e flecha, lançamento de dardo e o salto. O salto não aparece na “Ilíada”, mas é mencionado na “Odisséia”, onde encontramos, no canto VIII, as disputas atléticas organizadas pelos Feaces (povo mítico que recebe Odisseu durante sua viagem de volta a Ítaca) com o intuito de agradar o herói.

O costume de honrar os mortos com jogos fúnebres foi preservado durante toda antigüidade. Aqueles que morreram nas batalhas de Maratona e Platéias, contra os persas, foram assim homenageados. Conta-se que também Alexandre organizou competições atléticas após suas vitórias para demonstrar gratidão aos deuses e honrar seus mortos.

Segundo Pausânias, depois de certo tempo, os jogos caíram no esquecimento até a época de Ífito, rei da Élide. Ele teria, em 776 a.C., perguntado ao oráculo de Delfos o que fazer para salvar a Grécia, atolada em guerras. Apolo respondeu que ele deveria recomeçar os jogos em Olímpia, durante os quais seria estabelecida uma trégua sagrada inviolável: qualquer guerra ou hostilidade era interrompida durante as competições. No início a trégua durava um mês, depois três. Quem a desrespeitasse não podia consultar o oráculo de Apolo, nem participar das disputas.

Outras competições

Os jogos Olímpicos não eram as únicas competições atléticas de natureza pan-helênica que aconteciam na Grécia. Eram, sem dúvida, as principais, como afirmou Píndaro em sua “Primeira Ode Olímpica”. Existiam também os Jogos Ístmicos, realizados no Istmo, próximo a Corinto, e dedicados a Posídon; os Jogos Píticos em Delfos, em honra a Apolo e os Jogos Nemeus, que aconteciam no vale de Nemeia, em homenagem a Zeus. Os Jogos Olímpicos e Píticos ocorriam a cada quatro anos, enquanto os Ístmicos e Nemeus, a cada dois. O prêmio nos Jogos Olímpicos era uma coroa de folhas de oliveira; nos Jogos Ístmicos, de pinheiro; nos Píticos, de loureiro e nos Nemeus, de Aipo.

No início, os jogos olímpicos eram realizados num único dia e só existia a prova do stádion (até 728 a.C.), competição de corrida pedestre em que os participantes percorriam 192.25m, extensão do estádio de Olímpia. Com o tempo outras provas foram acrescentadas, mas essa continuou a ser a principal até o final dos jogos, no século 4 d.C. Seu vencedor dava o nome à Olimpíada. No período clássico, a partir de 472 a.C., a duração da olimpíada era de cinco dias. As competições estavam divididas em gímnicas e hípicas.

As gímnicas, nas quais se competia nu (gymnós, “nu”), eram provas atléticas realizadas no estádio, com modalidades para adultos e adolescentes. As principais, além do stádion, eram: díaulos, percurso de duplo estádio; dólicos, percurso de 24 estádios; luta, pugilato, pancrácio (combinação entre luta e pugilato) e o pentatlo, considerada a competição ideal pelos gregos, que compreendia as provas de corrida, arremesso de disco, salto, lançamento de dardo e luta. As hípicas eram realizadas no hipódromo e incluíam corridas de carros e de cavalos.

Os Jogos pan-helênicos tiveram grande importância para os gregos na formação do que poderíamos chamar de consciência nacional. Eles tinham a língua e os deuses em comum, mas estavam divididos em cidades-estados, politicamente independentes e, não raro, rivais. A contribuição fundamental dos jogos foi proporcionar a união de todos os gregos em torno de um objetivo comum. Era um momento em que diferenças e inimizades ficavam suspensas mediante a trégua sagrada. Apenas cidadãos gregos podiam participar das competições, vetadas a escravos e estrangeiros.

Os vencedores sentiam-se mais próximos dos deuses e da imortalidade. A vitória representava o coroamento de uma vida dedicada à superação de limites na busca de excelência física e moral. Alguns ganharam, de fato, imortalidade, por meio de poetas como Píndaro, Simônides ou Baquílides que cantaram suas glórias em belas odes, os epinícios. Porém a honra maior era o vencedor poder erigir sua própria estátua em Olímpia, onde colocava seu nome, do seu pai e da sua cidade de origem. A importância dos vencedores para seus conterrâneos era demonstrada por um costume que se propagou nas cidades gregas: elas recebiam os vencedores olímpicos derrubando um setor de suas muralhas, por onde eles entravam triunfantes sobre uma quadriga. Plutarco explica essa tradição dizendo que a cidade que possuía tais cidadãos não necessitava de muralhas.

* Jornalista, doutoranda em Literatura Grega Antiga pela FFLCH-USP e tradutora da tragédia “Héracles”, de Eurípides (Editora Palas Athena).

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