Bairros

Alunos reclamam de falta de acesso

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Laboratórios fechados, falta de oportunidade de acesso à Internet, número reduzido de computadores. Para grande parte dos alunos consultados pelo JC nos Bairros, o processo de inclusão digital nas escolas públicas tem apresentado uma série de limitações.

Em unidades de bairros periféricos de Bauru, como as escolas estaduais Ayrton Busch, no Parque Jaraguá, e Edson Bastos Gasparini, no Núcleo Gasparini, estudantes do período noturno afirmam que nunca utilizaram as salas de informática e diariamente encontram o espaço de portas fechadas. Esse é o caso de Daiana Talita de Oliveira, 16 anos, aluna do ensino médio. “Muitos aqui (na Ayrton Busch) não sabem nem ligar um computador, não sabem nada”, reforça.

A escola está localizada num dos bairros mais carentes da cidade. Daiana acredita que grande parte dos alunos não tem computador em casa e defende que o acesso digital seja democratizado nesses espaços. “Quem tem acesso à Internet está bem na frente das outras pessoas. Porque hoje em dia está tudo computadorizado. Quem não sabe usar vai ficando para trás”, avalia a estudante, para quem os computadores na escola estão sendo utilizados como “enfeite”.

Também os alunos da escola do Núcleo Gasparini reclamam por condições de acesso. Não é raro encontrar no local estudantes que nunca fizeram uso da Internet. A aluna Carolina Quirino, 15 anos, que estuda na 6.ª série do ensino fundamental, é um exemplo. Para a estudante, que é pouco familiarizada com o computador, o processo de alfabetização digital deve começar na escola.

“Os professores deveriam levar os alunos na sala de informática para usar os computadores”, diz. “Eu acho que esse aprendizado deveria começar dentro da escola para ajudar a gente lá fora, para arrumar um emprego melhor”, destaca a aluna, que está à procura de trabalho.

Apesar da sala de informática ter sido instalada há vários anos na escola estadual Walter Melchert, no Núcleo Octávio Rasi, para a aluna Maria Fernanda Franco, 14 anos, o computador continua sendo um “bicho estranho”. “Ligar e desligar eu sei, agora o resto...”, destaca a menina, que também nunca navegou pela Internet.

Segundo o estudante Eliton Luiz Alves Pereira, 17 anos, a sala de informática da Walter Melchert permanece a maior parte do tempo fechada. “Tem pouco computador para muito aluno”, reclama Eliton, lembrando que a maioria de seus amigos de classe não possui computador em casa. “A gente está meio parado no tempo”, conclui.

A professora Rosimeira Valderrama Norberto Fassoni confessa que nunca utilizou a sala de computadores ou desenvolveu qualquer tipo de atividade no local com os alunos. “Para ser sincera, eu não tenho conhecimento algum em informática”, justifica. Na estimativa de Rosimeira, apenas 30% dos docentes da escola utilizariam os equipamentos.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Cônego Aníbal Difrância, o percentual de professores que fazem uso dos recursos de informática é ainda menor. De acordo com a diretora Regina Maria Almeida Pacheco, num universo de 30 docentes, apenas três estariam utilizando os computadores da sala de informática, ou seja, 10%. Na opinão da diretora, o processo de inclusão digital na escola está apenas “engatinhando”.

O ritmo lento não tem agradado o estudante Guilherme Lopes de Oliveira, 12 anos, aluno da 6.ª série da escola. Ele afirma que os estudantes não estão tendo oportunidade de utilizar os computadores e ressalta como um dos possíveis problemas a falta de capacitação dos professores. “Nós não estamos usando porque as professoras não sabem mexer na máquina”, opina.

Em Bauru, 24 das 51 escolas estaduais possuem salas ambiente de informática (SAI). Em cada unidade, são disponibilizados apenas dez computadores. Já na rede municipal, 11 escolas do ensino fundamental foram informatizadas, cada qual com 21 computadores.

Para muitos estudantes de escolas públicas, a possibilidade de acesso à Internet ainda não é uma realidade

Horários alternativos

Em alguns estabelecimentos de ensino, como nas escolas estaduais Ernesto Monte e Joaquim Madureira, as salas de informática, aparentemente, têm tido um melhor aproveitamento, já que é oferecida aos alunos a possibilidade de acessar os computadores fora do horário de aula.

Entretanto, o processo é um pouco burocrático. O estudante precisa pedir uma autorização antecipada para o uso da sala, justificar a atividade que será realizada no espaço e agendar um horário. Em alguns casos, essa formalidade acaba desestimulando os alunos. “Quando eu quero usar a Internet eu vou em uma lan house e pago para acessar”, afirma Carlos Eduardo Afonso, 15 anos, visivelmente impaciente com a burocracia para o uso da sala.

Na escola estadual Ernesto Monte, também os alunos reclamam da falta de horários alternativos para a consulta na Internet. Isso porque a prioridade de uso dos laboratórios de informática é para atividades em aula.

“Em geral não há muita chance de utilizar a sala a não ser em período de aula com o professor. Além disso, o computador tem que ser dividido entre três ou quatro alunos. Fica difícil pesquisar assim”, reclama a estudante Raíra dos Santos Queiroz Geraldo, 15 anos.

Ao contrário de algumas escolas estaduais, as unidades da rede municipal não disponibilizam aos alunos as salas de informática em horários alternativos para o acesso à Internet.

Dentro do processo de inclusão digital, o professor Bruno Fuser da PUC-Campinas, pesquisador da área de comunicação e cidadania, destaca a importância de se oferecer horários de acesso adequados à realidade e à necessidade da população. “Muitas vezes esses equipamentos são oferecidos em horários que as pessoas não podem utilizá-los”, diz.

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A sete chaves

Em grande parte das escolas visitadas, o JC nos Bairros encontrou as salas de informática fechadas com cadeados e sem a presença de alunos.

Na opinião da professora de Educação Artística Tereza Cristina Vicelli, da escola estadual Stela Machado, as salas permanecem fechadas porque não dispõem de monitores suficientes para permanecer em tempo integral no laboratório. “Se você deixa os alunos (sozinhos) entrarem na Internet, direto e reto eles vão para salas de bate-papo, sites de pornografia. Isso é fatal. Eles não sabem ainda usar a Internet da maneira mais adequada”, diz ela, destacando que também os professores precisam ser capacitados para educar os alunos para o uso dessa ferramenta.

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