Deprimentes aqueles clipes monótonos e as falas bem comportadas e cheias de chavões dos candidatos a prefeito de Bauru. As músicas são quase idênticas, no mesmo ritmo das cantilenas dos anos 60. Letras de rima pobre exaltando a cidade e o candidato “comprositor”. Nenhuma delas é “assobiável”. A capacidade de memorização das músicas dos candidatos é nenhuma, embora a tentativa tenha sido, ao que parece, de acompanhar o estilo brega-chique dos sertanejos. Será que não dá para rolar um pagode? Que tal um frevo esquentado para acordar o telespectador? Que direi dos slogans, dos discursos, até mesmo das faces e vozes dos candidatos? O desfile interminável daqueles que postulam um lugar na Câmara mostra uma galeria lúgubre. Qualquer um percebe que os candidatos estão lendo cartazes com os textos que alguém está segurando atrás da câmera. Seria mais lógico deixar o papel na mão de cada um para os 20 segundos de fala. Todos eles obrigados a dizer que estão com fulano para prefeito.
O problema principal, no entanto, está no andar de cima. Acho que a obrigatoriedade legal do programa eleitoral gratuito no rádio e na televisão acabou prestando um desserviço à democracia. A primeira falácia está em chamar o programa eleitoral de “gratuito”. O governo faz favores fiscais às emissoras de radiodifusão e concede direitos de exploração comercial de um bem público (o espectro eletromagnético) em troca de favores políticos (pelo menos até outro dia). Os programas exigem uma produção caríssima. Qualquer estúdio mal equipado cobra R$ 8 mil o minuto. Como ninguém tem esse dinheiro na província, as produtoras fecharam pacotes para o primeiro turno de R$ 200 mil a R$ 400 mil.
Pesquisas revelam que mais da metade da audiência do horário é perdida com essa programação obrigatória. Quem tem TV a Cabo ainda se salva. Pelo menos por enquanto. Os partidos políticos querem também obrigar as operadoras de TV por assinaturas a deixarem de transmitir os canais exclusivos durante as transmissões compulsórias às TVs abertas.
Não bastasse isso, as pesquisas revelam que a audiência é dispersiva. Isto é, o cidadão mantém o aparelho ligado sem prestar a menor atenção ao que está sendo dito. E não se pode nem culpar os responsáveis pelo marketing político, se é que essa especialização realmente existe como algo que corre paralelo à própria estratégia política.
Visto o primeiro programa, teremos visto todos. Se houvesse acusações, denúncias e os programas baixassem o nível - o que seria ainda mais lamentável - talvez, por curiosidade, ou sadismo de alguns, os níveis de audiência poderiam subir. Nas últimas eleições municipais de Bauru, os candidatos a prefeito Tuga Angerami e Pedro Tobias, favoritos, ficaram brigando o tempo todo e esqueceram Nilson Costa. Resultado: Nilson ganhou e a cidade perdeu.
Mestre Roberto Duailibi, grande inovador da publicidade brasileira com sua DPZ, disse uma vez que, se os políticos fossem espertos, deveriam abandonar o horário gratuito e partir para os meios normais. Mais valem os panfletos entregues de mão em mão com um sorriso; os debates com o povo; outdoors e banners, do que impor ao eleitor uma obrigatoriedade que ele não aceita mais. Em rádio e televisão, entradas de 30 a 40 segundos de cada vez, são suficientes. Desde que não se queira vender relógios em vez de programas de governo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.