Poucos sabem, mas comemoramos no dia 15 de Abril o Dia Mundial de Conservação do Solo. É curioso pensarmos nisso, no momento onde temas polêmicos como água, fome, desflorestamento, desemprego parecem tomar conta do cenário mundial, não deixando espaço para qualquer outra problemática. Mas para quem está interado nos últimos acontecimentos, o tema solo está muito forte na mídia, concentrando-se nas invasões dos Sem-Terras. Baseado nessas informações, vem a inevitável pergunta: Será que sabemos a importância que o solo tem para nós? Bom, num primeiro momento (sem conhecermos a sua relevância) podemos dizer que não, pois só pelo descaso e mal uso, já se pode ter um parâmetro sobre o que temos em mente. Vamos sucintamente traçar um panorama sobre a situação do solo no Brasil.
Podemos dar várias funções ao solo, mas certamente a mais importante que temos é a agricultura. Imaginem, então, que o solo poderia ser responsável pela erradicação da fome no mundo. Ao falarmos de solo no Brasil podemos dizer que somos abençoados por Deus, afinal como em vários outros fatores, de todos os solos mais férteis do mundo, o Brasil conta com dois extremamente importantes: Massapé e Terra Roxa (importantíssimos para a cultura de cana-de-açúcar), além do fato do Brasil hoje ter um dos maiores superavits agrários, sendo também, um dos maiores exportadores do mundo.
O Brasi, a exemplo de outros países, sofre com problemas de estrutura fundiária sérios, que atualmente estão gerando uma das mais graves crises do governo Lula. Ainda assim, seria de bom senso indagar: qual o motivo para chegarmos a este ponto? A resposta está na poeira do passado, na herança colonial herdada, que obtivemos quando foram promulgadas leis, como a de sesmarias, cuja estrutura fundiária passou por um processo de transformações que deram aos homens da terra, ou do poder, total controle sobre as terras brasileiras. Num segundo momento, podemos frisar como foi a passagem desta época para a atual, enquanto conflitos por posse destas continuavam de uma forma avassaladora, a megalomania de grandes empresários, atores, políticos de comprarem terras continuava, pois significava poder, portador de uma situação econômica privilegiada.
Afinal, como seria possível para uma grande celebridade não possuir grandes lotes, e deixá-las ociosas em sinônimo de grandeza? A crise aumentava cada vez mais, à medida que ingressamos na década de 90 proporcionando um dos índices mais altos de conflitos rurais. De um lado grandes fazendeiros incentivavam a reforma agrária. Incentivavam? Mas se eram eles mesmos que mandavam atirar naqueles que invadissem as suas! Tolos de nós que não entendemos. Na verdade, o apoio oferecido aos Sem-Terras era a favor da ocupação das terras do Norte, solos inférteis, e o pior, à custa da retirada da floresta Amazônica para o plantio, condenando ainda mais esta floresta tão espoliada.
Mas o plantio de equívocos não se finda aqui. Para os leigos, o solo da floresta Amazônica é infértil, ou simplesmente contém uma leve camada fértil, que com as chuvas, ocorre o processo de lixiviação, isto é, a lavagem do solo, deixando-o com aspectos de solo desértico. Outro fenômeno preocupante são as erosões. Muito comum em países subdesenvolvidos, por aplicarem técnicas agrícolas primitivas, estão sendo responsáveis por outros desastres ambientais, como, por exemplo, a extinção da vegetação dos Pampas no Rio Grande do Sul. Isso devido à forte agropecuária na região. Mas a erosão não se limita ao aspecto campal. Nas cidades, grandes voçorocas são abertas todos os dias, devido ao descaso do poder público, que não trata com seriedade e vontade política esse problema. Diante de uma situação tão sintomática, resta alguma dúvida de que o espírito da inoperância existe e é atuante?
Quando acreditamos que os problemas dos solos estão acabando, lembramos que eles também, a exemplo das águas e plantas, sofrem com a poluição. No campo, o costume de colocar agrotóxicos nas plantas, gerou nos solos poluições de grau elevadíssimo, deixando-o infértil e de fácil contaminação humana.
Podemos considerar também o caso da contaminação do solo bauruense por chumbo, fonte de bateria, que colocou em risco a saúde de uma parcela considerável da população. A pergunta feita no início continua: Será que damos valor ao nosso solo? Dificilmente. Sabemos, sim, usufruir dele, pois somos hoje a maior potência agrária do mundo, mas até quando? Talvez depois de algumas informações ludibriosas, fica o recado dado ou pelo menos a problemática colocada. Resta a nós também averiguarmos, corrermos atrás do que nos interessa realmente: praticarmos a cidadania e a preservação da natureza ou continuarmos com os olhos fechados para mais esta mazela social?
Alexandre Camilo Magalhães - professor de geografia -RG: 30.239.222-1