Tribuna do Leitor

Estórias


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O tempo é implacável, transcorre sem nos demonstrar sua avidez pelo futuro.

Antigamente, década de 40, fazia-se o “footing” na rua 1º de Agosto, então João Pessoa, mudando-se depois para a Praça Rui Barbosa, e finalmente para rua Batista, quadra 7, defronte à antiga Confeitaria Lalai. Bons tempos. Hoje a ciranda continua na rua Batista, o famoso Calçadão. Onde jovens, idosos, compradores, curiosos, transeuntes que, alheios ao borborinho da rua, sequer percebem o que esta ocorrendo ao seu lado.

Grupos de amigos, e, evidentemente, amigas ali se encontram para um “bate-papo” informal, descontraído, às vezes transbordando sonhos e fantasias, outras vezes pilheriando com os acontecimentos jocosos da vida.

Dias atrás, ouvindo conversa de alguns “fratelos”, um deles narrou inusitado acontecimento que lhe teria ocorrido, quando da visita a um médico de ouvidos, para conhecer seu grau de surdez.

Em lá chegando, no consultório,é evidente, contava ele, ninguém à espera; na sala, apenas um guarda-costas e a secretária (nos consultórios sempre existe uma secretária, agora estão usando também “guarda-costas”, é lógico, ninguém é de ferro para suportar assaltos, pedintes e afrontas de todo jaez, muito menos choradeira de cliente). Pois é, lembrava o informante, em lá chegando, foi atendido, como sempre, pela secretaria, que informou: o doutor está um pouco atrasado, mas não demora, já vai atendê-lo. Adentrando à sala de consultas (haviam várias salas: para consulta, para exame, para informática,copa, coffe, etc. etc.).

Feitas as perguntas habituais pelo médico, qual o problema do paciente, como estava a audição, se ouvia bem ou mal, tom das vozes, grave ou agudo, enfim, uma sinfonia de perguntas seguida do que a seguir foi denominado exame propriamente dito, em outra sala; depois em outra, e depois em outra. Nesta última, a dolorosa, o palestrante inocentemente perguntou ao médico o valor da consulta, e este, prontamente: “acerte com a Secretária”.

Na sala desta, o incauto interlocutor teve a ousadia de perguntar o preço da consulta.Nos vários planos de saúde as consultas estão embutidas na mensalidade. A Unimed, em alguns contratos, cobra R$16,00 pela consulta. Como disse, o interlocutor teve a audácia de perguntar o preço da consulta. A secretaria prontamente, sem qualquer constrangimento, acanhamento ou despudor:”são R$370,00 à vista”, não aceitamos cartão de crédito ou boleto bancário. O paciente, que não ouvia bem, por isto foi consultar o médico, não entendeu o valor, e, novamente, indagou: QUANTO? “Já disse: R$370,00”. Os quais foram pagos, com sacrifício, com cheque pré-datado, o que,”graças ao bom Deus”, foi aceito, disse o interlocutor (ao contrário, o segurança ali se encontrava para as providencias necessárias). Em seguida deveria ser encaminhado para outra sala afim de fazer molde de aparelho, o que não foi feito. Vejam só, se aconsulta era de um salário e meio, o aparelho deveria custas o preço de um automóvel. O cliente, assustado, apavorado, temeroso do que poderia acontecer com suas finanças, imediatamente deixou o local para respirar ar da rua onde, embora poluído, era menos financeiro do que o do consultório.

Se é vero e non trovato, não se sabe, mas contaram no Calçadão da Batista, onde outras estórias certamente são narradas, mas que nem sempre chegam ao nosso conhecimento. Mas o Calçadão é efetivamente o novo ponto de encontro dos bauruenses. Até os políticos costumam aparecer para contar suas bravatas. E o “footing”continua, antigamente só à noite, hoje só durante o dia, é obvio.

Que o papo é bom, isso o é, tanto que o Jornal da Cidade, para incentivar a conversa e ouvir estórias, montou um recinto de café político, onde verdades e realidades são discutidas, comentadas e consagradas informalmente, para, às vezes, serem repassadas aos leitores.

Itamir Crivelli - OAB 20.911

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