Yumeimikobo, ou “loja dos sonhos”, é uma máquina inventada pelos japoneses para controlar o sonho. Como? O sonho seria controlável. Creio que não! Ele perderia seu fascínio, sua essência que como oráculo ou fonte de fatos sobrenaturais ou, ainda, de rompimento dos cânones da Física.
Sidarta Ribeiro, neurobiologista na Universidade Rockefeller, confronta o sonho com o oráculo. Ele coloca a função de sonhar entre as grandes questões ancestrais da humanidade: “muitas culturas concebem os sonhos como oráculos e fonte de avisos sobrenaturais. De Platão a Freud, a tradição oriental enveredou por um caminho oposto: os sonhos refletem apenas a vida tal como ela é (“restos diurnos”), como não pôde ser (frustrações e traumas) ou como deveria ter sido (desejos e pulsões).
A psicologia moderna demonstra que memórias recém-adquiridas são consolidadas durante o sono, enquanto a neurociência se dedica a decifrar os mecanismos responsáveis pelo fenômeno. Surpreendentemente, as conclusões preliminares dessa busca validam tanto o sonho como oráculo quanto como reflexo direto do cotidiano”.
Ilustrativo foi Erich Fromm em “A Linguagem Esquecida”: “quando estamos dormindo, despertamos para outra forma de existência. Sonhamos. Inventamos estórias que nunca aconteceram e que, muitas vezes, não tiveram precedente na realidade. Às vezes somos o mocinho, outras o bandido; às vezes vemos as mais belas cenas e sentimo-nos felizes, mas amiúde ficamos extremamente aterrorizados. Qualquer que seja o papel que desempenhamos no sonho, porém nós somos o autor, o sonho é nosso, nós inventamos o enredo”.
O sonho contraria leis da física. É o que confirma Fromm: “a maioria dos nossos sonhos tem uma característica em comum: eles não seguem as leis da lógica que governam nosso pensamento quando acordados. Sonhamos com dois fatos ocorrendo simultaneamente, quando na realidade tal não poderia suceder. É igualmente reduzida a atenção que damos às leis do espaço. É simples para nós deslocarmo-nos num instante para um lugar longínquo, estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Com efeito, em nossos sonhos somos os criadores de um mundo em que o tempo e o espaço, que restringem todas as atividades de nosso corpo, não possuem poder algum”. Em suma, embaralhamos até a quarta dimensão.
Na sabedoria oriental é colocado um problema: pode-se produzir o som de duas mãos batendo uma na outra sem saber qual é o som de uma das mãos? Sonhando identificamos.
O brinquedo japonês poderá inovar, fantasiando o sonho na sua manipulação. Mas valerá a pena sonhar por meios artificiais? Não! Devemos sonhar, mas com enredo inventado por nós mesmos, por mais ilógicos que sejam.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.