Depois de 24 anos, uma chapa de oposição, liderada por Paulo Skaf, chega ao comando da mais poderosa Federação de Indústrias do País. Trata-se de um evento de magnitude, tendo em vista o caráter plebiscitário do pleito e ante o novo papel a ser desempenhado pela entidade no feixe das articulações institucionais que tendem a ser mais intensas nos horizontes da política nacional. A verdade é que a Fiesp perdeu forças nos últimos anos, não apenas em função de mudanças ocorridas tanto na esfera das instituições sociais quanto no plano dos modelos de gestão que inspiram o universo organizacional. No primeiro caso, a observação é a de que muitas entidades perderam o eixo, ou porque não souberam entender ou porque não souberam acompanhar os movimentos da dinâmica social. Os conflitos travados nas ruas entre patrões e empregados, que desenhavam a estética das metrópoles, em tempos idos, ganharam foros mais fechados. A parceria e a negociação tornaram-se conceitos mais permanentes no novo jogo de relacionamento, na esteira de um mundo globalizado e de economias interdependentes, redutoras de postos de trabalho. Essa nova condição impôs às entidades de classe - de patrões e empregados - um discurso diferente, mais plural e menos ideológico, que se fez acompanhar de novas formas de abordagem. (...)
No centro do atual desempenho da Fiesp está a crítica queixosa a respeito de aspectos e vetores da política econômica, como taxa de juros ou burocracia das dificuldades que se impõem ao esforço das exportações etc. Noutra ponta, abriga-se o mapeamento do desempenho da produção, dentro da qual se fazem pesquisas de índices que mostram o refluxo e/ou o crescimento dos setores industriais. Temáticas centrais de caráter sócio-político e econômico estão sob a égide de um Instituto - o Roberto Simonsen - onde uma plêiade de figuras de expressão nacional discute realidade brasileira. Quer dizer, a capacidade da entidade confina-se, atualmente, à função de expressar metáforas políticas ou pontuações macro-econômicas, sendo quase inócua a força para ditar caminhos, balizar decisões ou influir no sistema decisório do País. Mas essa tarefa, é preciso reconhecer, fazia parte do rol de atribuições da entidade. A Fiesp chegou a escrever diversos capítulos da história econômica do País. (...)
Paulo Skaf ganha o comando da Fiesp sob o desafio gigantesco de recuperar sua força no sistema decisório em matéria de economia.Trata-se de um líder arrojado, tocado pelo fogo da determinação e inspirado na crença de que uma entidade, do porte da que irá dirigir, para cumprir bem sua missão, há de fazer história e não apenas ser dela figurante de segunda classe. A seu favor, exibe um apreciável empreendimento na recuperação do setor têxtil, quando, comandando a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, tirou-o do buraco da inadimplência para transportá-lo a um elevado patamar de superávit. Sua vitória representa, também, a mobilização de pequenos e médios setores que integram as bases da indústria. O desafio maior que se apresenta ao inquieto e loquaz novo presidente desta ex-tonitruante instituição, tem duas facetas: trazer para o leito da entidade as grandes cadeias produtivas que não se entusiasmam com a atual feição da entidade e pintar os traços da economia nacional com as tintas da mais importante Federação das Indústrias do País. Nesse sentido, a eleição que São Paulo acaba de presenciar poderá até inspirar uma arrumação nas casas de representação dos setores produtivos nacionais.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor-titular da USP e consultor político