Ele começou a trabalhar em selaria no auge da produção agrícola da região de Santa Cruz do Rio Pardo (a 90 quilômetros de Bauru). Alcindo Régio, conhecido por Doca ou Doquinha, entrou no mercado de selas e arreios em 1952, quando o animal e o homem eram essenciais para a agricultura e tratores e caminhões eram acessórios raros.
Nesta época, diz ele, só na cidade haviam oito selarias que não venciam a demanda de serviços. “Havia muita plantação de café, arroz, feijão e os fazendeiros utilizavam os animais para arar e capinar a terra. Para isso, usavam o arreio de carroça, de charrete e para carroça com seis animais.”
O tempo passou, mas Doca, apesar do mercado ter sofrido uma grande retração com a chegada das máquinas agrícolas, continuou na mesma profissão. “Hoje faço selas de todos os tipos, mais para competições e passeios, do que propriamente para o trabalho rural.”
Na região, os fazendeiros conhecem Doca e requisitam seus serviços na própria oficina. “Faço consertos de selas compradas em lojas. As minhas, garanto, que duram até 40 anos.”
O segredo do material confeccionado pelo seleiro que tem meio século de tradição, é o material usado e a mão de obra especializada. “Tudo é feito manualmente, com couro de primeira.”
Sua fama já atravessa fronteiras, embora faça questão de ser modesto. “Já fiz muito serviço para a atriz Lúcia Veríssimo, para o cantor Fábio Júnior e para o Brasil todo. Tenho clientes no Tocantins, Mato Grosso, Acre e em toda a região, especialmente em Bauru.”
Doca não faz apenas selas. Confecciona tudo com o couro, ou seja, fabrica capa de canivete, de celular, pulseira de relógio, calças de couro e tudo o que um artista pode fazer com essa matéria prima. “Tenho um carimbo que leva meu nome, telefone e endereço. Um cliente que gosta do meu trabalho, leva para outro e não é raro eu receber encomendas do Pará, Manaus etc.”
Seu ‘ateliê’ em Santa Cruz do Rio Pardo vive cheio de material pronto e a ser trabalhado. Em cada pedaço de couro um nome e a peça a ser confeccionada. “Hoje em Santa Cruz só tem a minha selaria. Tenho clientes que usam os meus serviços há mais de 30 anos,” comenta.
50 anos
Doca começou a trabalhar com couro levado pelas mãos de seu pai que pediu para o então seleiro Antônio Bento de Oliveira, o "Toninho Seleiro" para lhe ensinar a profissão. “Comecei fazendo arreio de carroça, quando as camionetes ainda eram raras no serviço agrícola e as carroças eram o principal meio de transporte.”
Como o seleiro não teve filho homem, teve que "adotar" um que possa dar continuidade ao seu trabalho. “Tive um oficial de selaria que foi o Vicente Carreiro. Ele trabalhou comigo durante 18 anos. Desde 89 que João Luiz Zapater ocupou o cargo deixado por Carreiro.”