Tribuna do Leitor

Anjos e demônios da madrugada - um caso de polícia


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Não precisa madrugar para ver assombração. Nem precisamos aderir à boemia para sabermos que as noites e madrugadas em Bauru crescem em movimento e perigo. Muito mais em risco do que em movimento.

Freqüentes encontros de cadáveres desovados na penumbra e homicidas fugidios detidos pela polícia em patrulhamento somam-se a furtos, algazarras, pichações e a nefasta e audaciosa traficância.

Na madrugada de 3 para 4 de agosto, adormeci exaurido, sob efeitos de um tranqüilizante, após o doloroso velório e sepultamento da minha genitora, para depois acordar assustado ao latido desesperado do cãozinho. Percebi vultos no interior da casa, mas o cansaço tamanho me fez retornar ao leito sem mais pesquisas. Já ao amanhecer constatei que havia esquecido uma das portas apenas encostada e que fora visitado por bandidos, diante dos vestígios de pés no canteiro e marcas de calçados no muro.

Indagado, o guarda noturno contou que a Polícia Militar havia abordado três rapazes do tipo Carandiru na confluência das ruas Caetés e Presidente Kennedy, no horário que indiquei.

O guarda do memorial, de seu lado, contou que os milicianos, em rondas constantes na madrugada fria, abordam, detêm, fazem busca pessoal em dezenas de pessoas excêntricas, tatuadas, alcoolizadas e drogadas que perambulam noitada a dentro pelo tradicional bairro da Cardia. Algumas, municiadas de apetrechos, tentam pichar as paredes do cemitério vertical, repelidas pelo vigia. Outras, misteriosamente saltam de dentro do Cemitério da Saudade, driblando a cerca elétrica aposta por sobre o muro.

Nesta madrugada - 1/9/04 - fui despertado pelo chamado do meu filho, à 1h30, alertando-me sobre a presença de dois homens de cócoras no terreno baldio ao lado. Vistos, os elementos andaram até a calçada, onde permaneceram ao lado de um “inocente” carrinho de catador de papel, observando as demais casas por mais de 20 minutos, falando gírias e repetindo - num vai dá pra faze o mocó.

Precavidos, chamamos 190 e fomos prontamente atendidos. Do quintal ouvíamos as explicações da dupla esquisita: “Seu guarda, nóis não ia robá, nóis só tava curtindo um braozinho. A gente não somos careta”. Estes são os demônios da madrugada. Por outro lado, contamos com os anjos entre vigias, guardas noturnos e a sempre presente polícia uniformizada, carente da nossa informação. Graças a Deus. Aos PMs, mais uma vez a nossa gratidão.

José Zonta Júnior - Advogado - OAB 131.885

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