“Até hoje fico deprimido ao falar daquela barbaridade”. É assim que o comandante aposentado Olendino Francisco de Souza , 76 anos, recorda-se do dia 24 de fevereiro de 1972, data em que o Edifício Andraus, no Centro de São Paulo, foi consumido pelo fogo. Na época, ele pilotava um dos helicópteros do Serviço de Salvamento Aéreo (SSA) da Capital e resgatou, em sua aeronave, 307 pessoas do alto do prédio em chamas.
Souza, que atualmente mora em Bauru, mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo em 1964 para trabalhar para o governo paulista. “Eu ficava à disposição do doutor Ademar de Barros, o então governador”, diz. No dia do incêndio do Andraus, ele estava no hangar da Vasp, em Congonhas, desde o início da manhã. O fogo começou por volta de 16h15 e o helicóptero do comandante Souza foi o primeiro a chegar no local.
“Eu comandava o SSA e quando estava decolando, recebi instruções da torre para ir até a 4.ª Zona Aérea, no Cambuci. Estava lá o coronel Gilson Rosemberg, que subiu no helicóptero e me disse que seria meu auxiliar e que faríamos o possível para salvar as pessoas no Andraus”, conta.
De acordo com o comandante, o helicóptero do SSA era o maior entre os que tentavam se aproximar do edifício em chamas, com capacidade para dez passageiros. “O vento estava trocado, turbilhonado, mas nós conseguimos chegar no prédio”, ressalta. Diversas pessoas já haviam subido para o topo do edifício, onde havia um heliporto, e acenavam desesperadas para os prédios ao redor e para as aeronaves que circundavam o local.
“O piso do heliporto não tinha condições de suportar nosso helicóptero, então eu tinha de ficar segurando o motor ligado. Conforme as pessoas iam subindo no helicóptero, eu ia aumentando a potência do motor, senão o piso poderia ceder. Isso gastava mil litros de combustível por hora”, aponta Souza.
Ao lotar a aeronave, o comandante decolava e rumava para o Aeroporto de Congonhas, onde deixava as vítimas da tragédia. Segundo Souza, ele fez o percurso 32 vezes e conseguiu retirar 307 pessoas do topo do Andraus. “Como nosso helicóptero era o maior, os outros só conseguiam se aproximar depois que a gente se afastava. Mas muitos pilotos se arriscaram para salvar aquelas pessoas naquele dia”, relembra.
Durante as mais de cinco horas em que ele auxiliou no resgate às vítimas do incêndio, um dos momentos que mais lhe marcaram foi quando o coronel Rosemberg tentou puxar uma mulher para dentro da aeronave. “Ela estava só de calcinha e sutiã, o fogo deve ter destruído as roupas, e quando ele a puxou, a pele do braço dela se desfez”, relata.
Souza comenta também sobre o desespero das pessoas que aguardavam o resgate vindo dos céus, enquanto o prédio ardia sob seus pés. “O coronel tomou um soco no nariz quando algumas pessoas tentaram invadir o helicóptero, naquele desespero para sair dali. Meu co-piloto viu e gritou ‘Decola que estão invadindo’. A gente fez o possível para salvar o maior número de pessoas”, conforma-se.
Exaustão
Por volta de 22h, quando não havia mais pessoas no heliporto do Andraus, Souza lembra que voltou para Congonhas, pousou o helicóptero e desligou o motor. “Estava uma noite gostosa e eu estava cansado daquela zoeira, de ver aquela barbaridade. Eu deitei no chão, na pista mesmo, e acordei horas depois, com médico e enfermeiras ao meu lado, no ambulatório do aeroporto.”
De acordo com o comandante, a ação de resgate no incêndio do Andraus só foi possível por conta da experiência dos pilotos que participaram da ação. “Eu tinha conhecimento e fui guiando os outros. No Rio de Janeiro, anos antes, já tinha salvo duas pessoas de um incêndio em um hotel. Elas estavam no telhado e eu consegui resgatá-las porque dei sorte”, argumenta.
Bauru foi a cidade onde Souza, há mais de 50 anos, tomou gosto pela aviação, exatamente quando começou a trabalhar como mecânico no aeroclube municipal. “Eu vim de Jacarezinho (PR) para Bauru e foi aqui onde comecei a voar com avião e planador. Era um bom mecânico e comecei a trabalhar com os aviões. A pista do aeroporto ainda era de terra”, recorda-se.
Após aprender a pilotar aviões agrícolas e helicópteros, Souza fez carreira como piloto. “Comecei ajudando a empurrar os planadores, mas cansei de ficar do lado de fora e quis ficar do lado de dentro do avião”, brinca. Ele deixou de voar somente em 1992, quando um acidente com um helicóptero lhe rendeu uma fratura na 8.ª vértebra.
“Eu estava fazendo transporte de passageiros de Congonhas para um evento em Interlagos. Estava escuro e o helicóptero estava tão bom que você nem sentia decolar. Eu dei ré e escutei um barulho. Quando levei o helicóptero para pousar, perdi os comandos, porque tinha batido com o rotor principal no canto de um hangar. Fiquei um mês internado e aí, afrouxei. Hoje, só vôo amarrado”, finaliza.
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A tragédia
O edifício Andraus fica na rua Pedro Américo com a avenida São João, no coração de São Paulo, e, na época do incêndio, a maior parte de seus 28 andares era ocupada por escritórios da loja de departamentos Casas Pirani. Havia ainda escritórios de outras empresas, como Petrobrás e Companhia Adriática de Seguros. O número de pessoas que trabalhavam no prédio ultrapassava 2 mil.
No dia 24 de fevereiro de 1972, por volta das 16h20, o incêndio teve início no terceiro andar. Acredita-se que o fogo tenha sido provocado por um curto-circuito nos cartazes publicitários das Casas Pirani. Em dez minutos, o fogo já tinha se propagado para os andares inferiores e, logo em seguida, para os de cima. O vento forte que soprava na cidade também colaborou para que as chamas seguissem consumindo os escritórios.
Isolados pelo fogo, muitos funcionários subiram até o último andar, enquanto outros permaneceram presos nos andares incendiados. Em desespero, as vítimas quebravam as janelas e saltavam para a morte.
Por volta de 17h15, o primeiro helicóptero conseguiu pousar no topo do Andraus, mostrando o caminho para diversas aeronaves dos governos municipal e estadual, assim como de firmas particulares, que auxiliaram no resgate às vítimas, que eram levadas para a Praça Princesa Isabel, Aeroporto de Congonhas e o Campo de Marte. Estimativas da Secretaria de Segurança Pública apontam que mais de 400 pessoas foram salvas pelos helicópteros.
Ao final da tragédia, foram contabilizados 16 mortos e 336 feridos.