Política

Café com Política: Marsola tenta se descolar do governo

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

O coronel Antonio Sérgio Marsola (PPS) defende sua candidatura para prefeito de Bauru com um misto de críticas e de citações de realizações do atual prefeito, Nilson Costa, gestão da qual participou como chefe de Gabinete desde o início do atual mandato. Por ordem alfabética, Marsola inaugura a série Café com Política em entrevistas individuais com os candidatos a prefeito.

De hoje até a edição de sexta-feira, a série vai publicar os quatro primeiros entrevistados. Na próxima semana, nos mesmos dias, serão veiculadas as questões discutidas com os demais candidatos para oferecer uma cobertura comparativa para a análise do eleitor. Leia a seguir os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - Por que o senhor é candidato? O senhor é ou não o candidato do prefeito?

Antonio Sérgio Marsola - Sou candidato a prefeito fruto de uma composição que inicialmente contava com várias correntes políticas e que culminou com o PPS e o PAN. Aceitei o desafio porque acumulo experiência na carreira militar e também como chefe de Gabinete da prefeitura. Deixei meu nome à disposição, sendo escolhido como candidato a prefeito. Acredito em uma composição política para que Bauru retome o desenvolvimento com muita seriedade e respeito pelas pessoas.

JC - O senhor não citou o prefeito Nilson Costa. Qual a participação do governo na proposta que o senhor defende?

Marsola - Como chefe de Gabinete não poderia ficar de fora das coisas da administração. O governo Nilson Costa teve vários momentos de tranqüilidade e teve também alguns momentos de adversidade. O governo Nilson Costa vai passar para a história como um governo de transição, a primeira administração sob a égide da Lei de Responsabilidade Fiscal, que é um complicador tremendo para a administração e que muita gente não se deu conta. O governo Nilson Costa realizou grandes obras na área da educação, saúde e também teve um grande número de problemas internos, fruto do próprio peso da máquina administrativa engessada pela lei fiscal. Fazer com que a máquina tivesse agilidade foi um desafio que o Nilson não conseguiu resolver e ele também enfrentou problemas de cunho político. O Nilson governou ao seu estilo. O coronel Marsola vai governar ao estilo coronel Marsola, aproveitando os bons resultados, conhecendo os problemas e corrigindo.

JC - O custo do funcionalismo terá que ser enfrentado. O servidor terá que pagar 11% e não mais 8% de previdência, o plano de saúde custa R$ 500 mil/mês. O governo não recolhe 14,5% para a Funprev. Como ajustar?

Marsola - Este é o grande desafio para o próximo prefeito. Nós temos um orçamento e a composição de todas as despesas da máquina. Os itens que você apontou geram entrave com a Lei de Responsabilidade Fiscal. O prefeito tem que conduzir dentro do limite estabelecido na lei. O atual prefeito concedeu três aumentos de salários razoáveis, comparados com a União e o Estado, que nada ofereceram. Vai ficar marcada a criação da Fundação de Previdência (Funprev). Os índices de contribuição terão que ser mexidos de acordo com a lei para que a fundação possa pagar as aposentadorias e pensões no futuro. Temos que retomar essa discussão para que a fundação tenha saúde financeira. A prefeitura mantém um plano de saúde para o servidor que não é oferecido em outros lugares, uma assistência à toda a família do servidor.

JC - Mas a conta não fecha e o senhor testemunhou isso como chefe de Gabinete. Como resolver?

Marsola - O próximo prefeito terá como um dos primeiros desafios atuar nesse campo. Eu quero antes mesmo de assumir nomear um grupo de trabalho para fazer uma reforma administrativa, com um estudo profundo para uma máquina pesada, com mais de 4.000 servidores. É preciso repensar a grade salarial e as funções para se promover a redução de despesas.

JC - Dê um exemplo?

Marsola - Um exemplo concreto. Você tem a Secretaria de Obras que cuida infra-estrutura da cidade e uma Secretaria das Administrações Regionais que cuida da manutenção da infra-estrutura; tem a Secretaria de Meio Ambiente que atua com a manutenção de praças, áreas verdes e tem o DAE que atua nas redes de água e esgoto nas ruas, além de poços e coleta de água. Pretendo juntar todos esses órgãos para fazer uma discussão para definir a atuação sem conflitos. No asfalto hoje mexe o DAE, a Sear e a Obras. Precisa resolver para ter economia de meios e de material até para agilizar a prestação de serviços.

JC - Mas o eleitor vai perguntar porque isso não foi resolvido no governo onde o senhor era chefe de Gabinete? O senhor defende a junção de secretarias?

Marsola - O que eu pretendo é resolver aquilo que a atual administração não conseguiu fazer. Desde o início do atual governo que eu fui para a chefia de Gabinete havia uma proposta de reforma administrativa, só que a prefeitura estava gastando 60% da receita com a folha de pagamento. E o primeiro desafio foi se enquadrar nos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse grupo que eu proponho vai realizar o estudo para apontar o que precisa ser feito.

JC - Quem vai pagar o asfalto para a periferia da cidade?

Marsola - Minha proposta é a da verdade, da coerência, daquilo que é possível fazer. Estou ouvindo candidatos fazendo promessa de asfalto de graça. Sei como fazer para amenizar o problema das ruas que não têm asfalto. Hoje temos em Bauru 64 ruas sem asfalto por onde passam ônibus coletivos. São 200 quadras no total utilizadas pelos ônibus e causando um grande problema, é pó na seca e lama na época das chuvas. Vamos fazer com o orçamento as 64 ruas por onde passam os coletivos no primeiro ano de governo. Isso vai custar R$ 3 milhões e vamos realizar. A partir daí você tem um grande alívio nos bairros. Depois vamos para as demais ruas com outras fontes, com o asfalto comunitário, com parceria com o governo do Estado. Existem recursos, vamos buscar. Mas asfaltar a cidade inteira de graça é conversa mole.

JC - O financiamento do tratamento de esgoto será pago pelo usuário?

Marsola - O discurso de buscar recurso junto ao governo federal é de todos e é um caminho. O custo do projeto fica em torno de R$ 60 milhões e o DAE já executou uma parte dos coletores de esgoto. O restante dos recursos é possível, a CEF tinha o recurso e só não foi possível porque a cidade aguardou a ordem de acesso ao programa, a Câmara reduziu o financiamento para R$ 25 milhões, para uma necessidade de R$ 60 milhões, e a CEF não aceitou valor menor. Existiu uma guerra política em Bauru não permitindo que esse programa fosse realizado.

JC - Mas a CEF apontou que o município não reúne condições de endividamento e ainda tem que estar adimplente com a União?

Marsola - Eu conheço as contas. Não há grandes dificuldades não. O problema com a CEF foi que havia dívida de FGTS com a Emdurb, que inviabilizava o financiamento. A Câmara, já na época, não aprovou o parcelamento do FGTS, tornando inviável a busca do financiamento. Mas superamos esse entrave junto à CEF, mas a dívida da Funprev inviabilizou. A dívida que se arrasta há anos está ajuizada e tem uma dívida mais recente, do período de 2001 e 2002, que estava um projeto na Câmara também pedindo parcelamento. Faltou composição política mais uma vez para viabilizar a solução.

JC - Um dos erros do atual governo foi não viabilizar uma composição política?

Marsola - Acredito que sim, realmente faltou uma capacidade de superar um grave entrave político em Bauru. E a gente credita isso ao Nilson Costa, mas eu vivendo do lado dele vi que em determinados momentos era difícil compor. Ele sofreu nove investigações pela Câmara. Então o prefeito também ficou em uma situação difícil. Como você compõe com as pessoas que querem o tempo todo te cassar? Mas faltou sim ao Nilson um pouco de vontade de fazer essa composição. Eu quero que o Legislativo pegue no pé, mas quero também que o vereador seja responsável pelos problemas da cidade.

JC - Mas por que a atual administração não fez isso?

Marsola - Ele tentou, mas não teve talvez habilidade para fazer. O Nilson é o Nilson e o Marsola é o Marsola. eu pretendo fazer diferente e ter realmente capacidade de fazer uma composição e chamar os vereadores pra responsabilidade.

JC - O programa de governo do senhor aposta na técnica de fresagem para recapear as ruas. Por que isso também não foi feito no governo?

Marsola - Quando se fala em reparo das vias, você entra em uma discussão técnica complicada. Tem o solo de Bauru, o asfalto vencido com média de mais de 20 anos, o asfalto com boa base dura em torno de 15 anos. Se tem asfalto de 40 anos, ele praticamente não existe. Em muitos lugares têm buracos. Foi colocado, coisa recente para nós, a técnica da fresagem que é fazer uma limpeza da camada danificada do asfalto e faz um recape com uma espessura menor capaz de suporte trânsito leve, nas ruas intermediárias. É possível, com custo bem menor, fazer a fresagem ao invés do tapa-buracos. No momento em que essa técnica foi apresentada, a prefeitura não tinha recursos. De julho de 2002 a dezembro de 2003 tivemos uma redução de receita de repasse do ICMS e do Fundo de Participação do Município de R$ 12 milhões, fruto da conjuntura nacional.

JC - Mas a receita global do Município aumentou, inclusive dos repasses?

Marsola - Se você pegar o exercício completo, tem acréscimo de receita. Mas você administra pontualmente, tem despesas a pagar e receita mensal. Se você coloca a pontuação mês a mês não consegue encontrar os recursos. No segundo semestre de 2003 a gente tinha previsões e não deu, teve o pagamento de metade do 13.º salário e precatório no final do ano e contas dos fornecedores que foram se acumulando, exatamente no momento em que se apresentaram propostas como a fresagem do asfalto.

JC - As entidades de saúde defendem a inversão do atual sistema, atacando a prevenção ao invés de atacar a doença.

Marsola - Na nossa proposta, nós temos que ampliar o Programa de Saúde da Família, que está hoje só na Pousada da Esperança. Cobramos já na atual administração para implantar na região do Ferradura Mirim, Tangarás. A próxima etapa é o Jaraguá e Santa Edwirges. Precisamos progredir com esse programa, para cuidar do cidadão a partir de sua casa.

Comentários

Comentários