Na semana em que os brasileiros se debruçam sob a história do País, parte da memória de Bauru foi destruída em poucos segundos pelo fogo. Anteontem à noite, um incêndio consumiu quase que totalmente dois carros ferroviários que estavam na área externa de um galpão situado na Vila Dutra, onde seriam mantidos sob a proteção de uma empresa privada até que o processo de restauração fosse iniciado.
Há indícios de que os danos foram intencionais. Os prejuízos só não foram maiores por causa da ação rápida dos seguranças da empresa e do Corpo de Bombeiros. Juntos, eles conseguiram salvar outros três carros da mesma composição, que também fazem parte do patrimônio ferroviário.
“Ouvimos um barulho, uma explosão. De longe vimos as labaredas. Foi muito rápido. Os bombeiros fizeram o rescaldo para que tentássemos desengatar a composição. Empurramos para trás e salvamos os outros”, conta o segurança do galpão, que preferiu ter o nome preservado.
As circunstâncias do incêndio serão investigadas pelo 1º Distrito Policial (DP), onde um boletim de ocorrência foi registrado. “A Polícia Técnica foi acionada. O laudo pericial vai dizer se é criminoso ou não. Se concluir que sim, vamos tentar identificar os autores”, informa o delegado Ronaldo Divino. De acordo com ele, o resultado deve sair em 15 dias.
Embora prefiram aguardar o laudo para comentar a ocorrência, bombeiros que estiveram no local não descartam a possibilidade do incêndio ser criminoso. O tenente Adilson Reis confirma a suspeita.
Foram consumidos pelo fogo o carro bagagem/correio fabricado em 1941 e o carro administrativo (com quatro leitos) de 1944. Os dois foram construídos com madeira nobre (cedro rosa e Ipê) e até segunda-feira estavam num pátio coberto da Ferrovia Novoeste S/A.
“Os cinco carros estavam sofrendo pequenas depredações. Entramos em contato com a empresa proprietária do galpão na Vila Dutra e pedimos para guardá-los. Eles acenaram positivamente. Mandamos um ofício para a Novoeste fazer o transporte, o que ocorreu na segunda-feira, ponto facultativo na Prefeitura”, explica a diretora de pesquisa e documentação da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Roberta Mathias.
Poucas horas depois, os dois carros estavam em chamas, antes de serem acondicionados no barracão de 7.000 metros quadrados, vigiado 24 horas por causa das ocorrências de furto no local. No entanto, de acordo com o comandante da Base Comunitária de Segurança Oeste, Paulo César Valentim, as ocorrências dessa natureza não são corriqueiras na região da Vila Dutra.
A assessoria de imprensa da Novoeste também diz garantir segurança constante ao material operacional, acondicionado próximo ao pátio da empresa.
____________________
Restauração
O fogo queimou parte da estrutura de madeira dos carros, mas também reavivou a intenção da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) de manter o projeto de restauração do patrimônio ferroviário. É o que garante a diretora de pesquisa e documentação da secretaria, Roberta Mathias.
“Temos o dossiê do carro e condições técnicas para reconstituí-lo. Esse patrimônio não é da SMC. Tem 344 mil donos. É lamentável”, desabafa a diretora, cuja equipe estava fechando convênio para restaurar o bagagem/correio, por meio de mais uma parceria que sustenta o projeto “Ferrovia para Todos”.
Iniciado efetivamente em 2001, o “Ferrovia para todos” tem por objetivo a implantação de política de preservação ferroviária em Bauru. A ferrovia é considerada um elemento da cultura urbana, que interfere na dinâmica da cidade.
Assim, além da preservação da memória oral dos ferroviários, o projeto se preocupa em promover o restauro de composições ferroviárias. Já foram recuperados uma maria-fumaça, um carro de passageiros e outro carro-dormitório por meio da união entre poder público, ferroviários aposentados e iniciativa privada, grupo do qual o Jornal da Cidade faz parte.