“‘Pacu por aqui só pega de noite!’ A palavra firme do pirangueiro soou muito estranha a nós, membros da caravana. De noite é hora de peixe liso, de couro, ou, no mínimo, de olho de jacaré brilhando no escuro.
Era o mês de setembro de 1988, época da nossa segunda pescaria no Pantanal. Nove bons companheiros, todos bons pescadores, mas ainda aprendizes dos muitos segredos dos rios pantaneiros. E essa história de pacu com hábitos noturnos era a maior novidade...
‘E tem mais: só em noite sem lua no céu! Quanto mais escura a noite, maior o tamanho do pacu!’ Era essa a sabedoria de quem vivia com o rio. Mas quem se dispunha a pilotar o barco à noite ou então a pisotear barranco nas adjacências do nosso acampamento, com onça roncando e sucuri triscando?
A verdade é que, transcorridos cinco dias, já na antevéspera da partida, ninguém tinha ferrado um pacu sequer durante o dia, mesmo os colegas mais persistentes que emendavam de manhã à tarde sem parar. Tinha até gente apelando para pebinhas, piaus e piaparas nas sevas mais próximas. Voltar sapateiro do Pantanal seria gozação na certa.
Naquela quinta noite, por volta das 11h30, recebo um cotucão na perna, por debaixo do tule do mosqueteiro. Sono interrompido, abro os olhos e vejo o Nei todo arrumado para pescar.
- Levanta e vem comigo. O freezer está vazio. O negócio é seguir o conselho do pirangueiro. Parece que pacu é só de noite mesmo. É hoje ou nunca.
- Minha lanterna nem acende mais. Pilha vencida. Lá fora a noite está um piche de escura.
- Vem comigo que eu te empresto a minha lanterna. Nessa escuridão, de dois o medo encurta.
Enfiei calça, camisa e botina, juntei vara e carretilha, e fui tropeçando atrás do Nei até chegarmos à barranca do rio. A lanterna permaneceu acesa para iscarmos os toletes de curimbatá e para darmos uma examinada por detrás das moitas de capim. Feita a rotina de segurança, o Nei deixou a lanterna comigo e seguiu mais uns 20 metros acima para fazer o arremesso num belo remanso que havia por ali.
Anzóis na água. Escuro por completo. Pios de pássaros de quando em vez. Agora era esperar para ver se a teoria do pirangueiro estava correta. Meia hora, uma hora se passou, quando escuto uma forte fisgada do Nei.
- Acho que peguei um bitelo! - o velho molinete do meu companheiro começava a roncar.
A roncar, a roncar que não parava mais. Um roc-roc interminável. Até que ouço um apelo vindo lá de cima.
- Traz a lanterna aqui. Não consigo enxergar nada. Esse pacu deve ser do tamanho de uma bacia. Não quer sair da água de jeito nenhum. Vem rápido pra cá!
Recolhi rapidamente a minha linha e corri barranco acima, com a lanterna já pronta para ajudar. Pelo barulho pesado do molinete do Nei, o pacu devia ser enorme. Ao chegar, procuro o ponto exato da briga e o que descubro dentro do facho de luz?
O pobre do pacu - de uns cinco quilos e meio - estava com a boca aberta bem na ponta do caniço do Nei. E o meu amigo, naquela escuridão, não parava de manivelar, recolhendo linha e pensando que o peixe ainda estava dentro do rio. Diante daquela cena, dei uma gostosa risada e falei:
- Ô Nei, você está querendo enfiar esse pacu pelo passador do caniço. Como é que essa roda aí vai entrar no buraquinho do passador? Pode parar porque por aí esse pacu não passa!”
Ezequiel Theodoro da Silva é pescador e contador de histórias