Todas as nossas aspirações e desejos têm apenas um alvo, uma meta, sermos felizes. Agora eu pergunto: será que toda essa chusma de elementos tecnológicos, todas as invenções que trouxeram aos homens conforto e segurança, tornou-os mais felizes do que éramos, antigamente?
Vejo as pessoas, hoje em dia, atormentadas pela falta de tempo. Parece que as horas não tem mais aqueles profícuos 60 minutos que existiam e se desdobravam em fecundos dias e noites. Se todos os meios de comunicação nos levam mais depressa, onde está o tempo que deve ter sobrado desse percurso?
Podemos nos comunicar por telefone ou e-mail ao invés de irmos até o local da pessoa procurada; onde foram parar essas dezenas de horas que foram poupadas?
Éramos mais alegres, mais felizes e principalmente mais modestos nas nossas aspirações. Tínhamos menos, mas vivíamos melhor. Procurávamos compreender as pessoas e convivíamos, caridosamente, com seus problemas. Hoje, ao contrário de compreendê-las, elas são diagnosticadas, analisadas. Todo comportamento é visto por um prisma de origem patológica ou genética.
O egoísmo, a indelicadeza, o mau humor, o gênio irascível, a agressividade, a falta de educação, tudo tem nova nomenclatura. Ninguém está triste, mas deprimido; não há cansaço, mas stress; uma crise nervosa é neurose e tudo tem raízes longínquas de síndromes, recalques, traumas, complexos.
Superávamos os grandes dramas, sozinhos. Morriam as pessoas que amávamos, perdíamos, maridos por várias razões, despedíamo-nos dos filhos, sofríamos revezes e decepções, sem nenhuma ajuda exterior. Talvez por isso saímos das crises, fortalecidos. Não havia apoio de psicólogos nem psiquiatras, nem medicamentos para amortecer dores morais. O tempo fazia sua cura; ressurgíamos das cinzas e voltávamos a viver e amar.
Tudo era mais simples; éramos mais ignorantes e como Freud ainda era uma criança, desconhecíamos os meandros complicados da mente humana. Éramos ricos em tempo; usufruíamos alegrias comesinhas do convívio amoroso, o trato das amizades; havia silêncio para ouvirmos a noite, o vento farfalhando árvores e teus passos, de madrugada, na minha calçada...
Certamente estas divagações não significam mais nada nestes tempos modernos e sejam apenas saudosismo e reflexões de uma velha senhora...
A autora, Adelaide Reis de Magalhães, é escritora e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte