Bairros

Hoje é a última chamada para a pólio

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

“Tome providências já. Agora. Para ontem, voando.” A recomendação urgente parte de Araci de Souza Santos e é dirigida às mães que ainda não levaram seus filhos para vacinar contra a paralisia infantil (poliomielite), sarampo, caxumba e rubéola. Fadada a uma cadeira de rodas por ter contraído a pólio quando tinha 1 ano da idade, ela insiste para que as crianças ainda não imunizadas sejam encaminhadas a um posto de saúde hoje, último dia da campanha de vacinação.

â€œÉ um perigo não imunizar. Essa doença é muito triste e as mães não podem alegar ignorância”, adverte Araci. No entanto, até anteontem, apenas 23.609 crianças haviam recebido a vacina contra a paralisia infantil e 18.644 haviam sido imunizadas pela tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola). Os números representam, respectivamente, 92,19% e 89,5% da população estimada nas faixas etárias indicadas.

Os percentuais estão abaixo da meta de 95% estabelecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e perseguida pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). “Ou essa população - calculada com base no senso de 2000 - está superestimada ou os pais não levaram mesmo seus filhos ao posto de saúde”, informa Maria Helena Abreu, diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da SMS.

Para incentivar a vacinação, a SMS ampliou a divulgação sobre a campanha, principalmente em bairros onde a imunização ficou menor que a expectativa, como na Vila Dutra, no Parque Santa Edwirges e no Jardim Godoy. No Ferradura Mirim, um ônibus gratuito foi oferecido aos moradores no primeiro dia da campanha, que foi prorrogada por uma semana.

Mesmo assim, algumas mães do bairro titubeavam ao responder à reportagem se já haviam vacinado seus filhos. Na seqüência, eram enfáticas ao afirmar que sim. Segura mesmo é Araci Campos Souza ao sustentar que ver a filha acometida pela paralisia infantil foi um dos seus maiores sofrimentos.

“Ela começou com uma febre muito alta. Não tinha remédio que melhorasse. Depois a mãozinha começou a ficar mole, não dava nem para comer pão. Corríamos atrás dela noite e dia. Era um desespero”, recorda a mãe de Araci de Souza Santos.

Na época, a mãe que deu seu nome à filha desconhecia a importância sobre a vacinação.

Ela não sabia, por exemplo, que a poliomielite é uma doença viral que pode ocorrer sob forma de infecção. Além da febre e da paralisia flácida de braço e perna, seus sintomas são mal-estar, coriza e diarréia. Ela pode provocar parada respiratória e até a morte.

“São doenças virais que não têm tratamento específico. A única forma de prevenir é a vacinação”, acrescenta Abreu.

De acordo com ela, o sarampo começa como uma gripe forte, com tosse, espirro e, depois de quatro ou cinco dias, erupções na pele. Ela pode ser transmitida por gotículas de saliva e pode causar a perda da audição, crise convulsiva e retardo mental. Já a transmissão da paralisia infantil se dá por meio das fezes, que contaminam água e alimentos.

“Foi ignorância dos meus pais não ter me vacinado. Agora, não falta informação. Passei coisas terríveis, porque tudo é muito complicado. Fica difícil procurar emprego ou fazer uma visita na casa de parentes, por exemplo. Os locais não são adaptados. Por isso, tem de vacinar. Sempre levei a minha filha, que hoje tem 9 anos”, reitera Araci dos Santos, cujo marido também teve paralisia infantil.

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Cobertura

O último caso de paralisia infantil no Estado de São Paulo foi registrado em 1988, no município de Teodoro Sampaio. A diretora do DSC, Maria Helena Abreu, não se recorda quando Bauru fez a última notificação da doença, mas acredita que nenhuma tenha sido registrada nos últimos 20 anos.

Mesmo assim, ela teme que a doença volte porque, embora tenha sido erradicada no Brasil há 15 anos, existem focos de poliomielite em outros países, como na África, e que podem chegar aos bolsões de pobreza do País, onde as algumas mães deixam de vacinar seus filhos.

Já o último caso de sarampo foi registrado no Brasil em 2001. Em Bauru, há pelo menos cinco anos não há registro da doença, controlada também por meio da cobertura de rotina da Secretaria Municipal de Saúde. O órgão imuniza as crianças de acordo com o cronograma da carteirinha da vacinação.

Mesmo assim, todas elas devem receber nova dose da Sabin (contra a paralisia infantil) e da tríplice (sarampo, rubéola e caxumba) nesta fase do ano. Hoje, os postos de saúde vão funcionar das 8h às 17h. A vacina não tem contra-indicação e pode ser aplicada em qualquer hora do dia, de acordo com a preferência da mãe.

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