O governo Lula programou uma série de pequenas obras no setor de transportes (algumas já iniciadas, como o reparo de trechos rodoviários) para eliminar os gargalos que mais encarecem o escoamento das safras agrícolas, perturbam o abastecimento de matérias-primas e nos acessos aos portos por onde flui a exportação de bens industriais. Com os parcos recursos do orçamento federal, esta é uma resposta inteligente e eficaz às exigências da retomada do desenvolvimento. O atual surto de crescimento não precisa ser interrompido porque a infra-estrutura foi abandonada todos esses anos. À medida que o processo se acelera, o papel do governo é este mesmo: cada problema resolvido gera três novos problemas que quando são superados produzem outros nove e assim por diante. É importante entender estes fatos , para que não se repitam os erros que permitiram o apagão energético, quando o Brasil perdeu 2% do PIB em 2001, porque o governo da época deixou de realizar investimentos relativamente modestos para a interligação dos sistemas de geração.
Nesse momento, quando as estimativas do PIB apontam um crescimento de 4,2% no primeiro semestre, os “falcões-masoquistas” do mercado financeiro tentam demonstrar à Nação que 3,5% é o crescimento de nosso “produto potencial”. Acima disso - dizem - a taxa de inflação vai ultrapassar a meta de 5,5% que o Conselho Monetário Nacional fixou para este ano. O “mercado” está sendo “trabalhado”, apoiado numa enorme cobertura da mídia, para ir antecipando a indispensável alta da taxa de juros. O que se pretende é aumentar a taxa Selic na próxima reunião do Copom, para corrigir o “desvio” desse PIB mal comportado, que cresceu 4,2%, quando deveria crescer 3,5% ! Será o retorno a uma política suicida que provavelmente comprometerá o estado de espírito favorável aos investimentos e prejudicará o aumento da capacidade produtiva.
Não é possível saber com segurança como reagirá o PIB. Uma estimativa razoável, tendo em conta as variações estacionais, é que ele está muito próximo de crescer 4,8% em 2004, com um crescimento de 5,4% sobre o segundo semestre de 2003. Para reduzir o crescimento do PIB a 3,5% em 2004, como querem os “falcões-cientistas”, o Banco Central terá que aumentar os juros para cortar consumo e investimento a um nível que resulte num crescimento de apenas 2,8% neste segundo semestre, em relação ao segundo semestre de 2003.
Em lugar de estabelecer metas factíveis para a inflação, monotonicamente decrescentes, perfeitamente compatíveis com um crescimento sustentado da economia, nossas autoridades monetárias perseguem metas “olímpicas”, sistematicamente descumpridas, mas seguramente empurrando a economia à estagnação. O Brasil vai “jogar fora” algo como 1,3% do PIB anual de 2004, repetindo o “efeito apagão” dos anos FHC, por conta da bruxaria que pretende obter 4,5% de inflação em 2005.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP