Ser

Minha história: Revelações a uma moça 34 anos depois


| Tempo de leitura: 3 min

Ouso escrever sobre alguém que ficou na minha memória, “uma lourinha de olhos verdes” que conheci no distante ano de 1970, em Rio Preto, como fez Arnaldo Jabor...

Hoje, mais de 34 anos depois, vou dizer o que sentia por você. Você foi o que eu imaginei o que seria uma namorada. Você despertou em mim um tremor novo, a primeira emoção do que mais tarde vi que chamavam “amor”. Em uma tarde cinzenta de um maio longínquo, em frente ao portão de sua casa, eu senti uma alegria inesquecível como se tudo ali estivesse no lugar perfeito: a brisa leve da tarde, a paz da rua, o silêncio sem pássaros, você encostada no portão marrom e, não sei por que, senti uma felicidade insuportável, como se ouvisse o calmo funcionamento no mundo. Percebi confusamente que ali, no teu sorriso, ou olhos, ou boca, estava a explicação do sol filtrado em listras entre as folhas da árvore.

Esse foi um momento que me ficou nos últimos 34 anos. Depois, uma brincadeira também criada por nós, e hoje esquecida: “brincar de nove”, com as cartas de um velho baralho, lembra... e eu beijei timidamente seu rosto, depois sua boca , sentindo-me em seguida, a voar e vendo as casas do bairro lá embaixo. E, assim, você ficou de namorada oficial da minha adolescência.

Tempos atrás, andei pelas ruas de Jaú. Procurei sua antiga casa, mas não a localizei. É, passaram muitos anos... Sentei-me num velho banco de pedra da Praça da República. Então viajei no ano de 1971, novembro, quando estive nessa cidade. Sonhei que caminhávamos pelo passeio arborizado, ou que assistimos ao filme “Love Story”, sucesso de bilheteria da época, e num átimo, já estávamos agarradinhos no escurinho do cinema, você se retorcendo e recusando meu assédio aos seus desejados peitinhos. Depois, uma ida até a confeitaria “Jaú Chic”; “um amasso” no banco do jardim. Pronto...Diretos pra casa, pois já se passavam das dez...

ACORDEI... Nesse tempo seu coração já batia por outro e percebi então que não mais fazia parte dos seus sonhos. Depois, recebi a notícia do seu casamento e com ela o convite para janeiro de 1975. Desde então não me restou qualquer aspiração, mas ainda trago comigo três fotos suas, com uma singela dedicatória.

Continuei minha trilha pelos caminhos que se abriam para jovens solitários daquela época: as casas de pecado, os famosos “rendez-vous”, o que nos fez dividir as mulheres em “santas” e “prostitutas”, ficando as santas como você em nossa memória iluminada e as outras sendo fonte de erros e sofrimentos.

Não conversamos mais, você nem soube que continuava sendo a namorada oficial e secreta da minha adolescência, e vivemos todos esses anos em mundo diversos. Você deve ter sido feliz, com esposo e filhos, seguindo a trilha natural da vida...

Recentemente o acaso fez com que tornasse a vê-la na esquina de uma movimentada avenida de Bauru. Fiquei arrebatado. Engraçado, você sempre me pareceu inatingível, etérea, como se fosse destinada a outro e não mim... Não pude ver seus lindos olhos verdes por trás dos óculos de sol que usava e você me disse: “menino, o que você está fazendo aí parado?” Por um instante todo o passado estava ali, na minha frente (desde a noite dos seus l5 anos, quando, numa improvisada “brincadeira dançante” nos fundos da sua casa, animada por uma “sonata” e alguns discos de vinil, ao som de “Do You Wanna Dance”, você me ensinou os primeiros passos e, para minha glória e o ciúme geral dos meninos, dançamos a noite toda com nossos rostos coladinhos). Hesitei e não respondi que “o menino” sempre esteve ali, a sua espera, sem nunca ser notado. Recobrei-me. É, dura realidade...

Vejo hoje que as memórias são tão sólidas quanto às realidades, que muitas vezes se esvaem mais rápido que aquelas. Você, de quem me lembro muito bem, ficou como uma primeira sensação do que chamam de “amor”. E como diz o poeta “... as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão...”.

Beijo tardio.

João Pedro.

Comentários

Comentários