O atual modelo de hiperespecialização médica tornou-se histórico e cultural tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede particular. Mas qual é o seu limite?
“A racionalidade”, defende a médica sanitarista Elen Rose Lodeiro Castanheira, que é professora do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. Na opinião dela, a realização de exames tornou-se um bem de consumo para parte da população.
“Não dá para pensar que é como ir ao shopping (e comprar o serviço). Os exames são caros. Precisam ser racionalizados. O acesso (aos exames) é um direito, que tem de ser universal e pleno. Alguns grupos que têm mais acesso são atendidos, outros não”, adverte. Para ela, essa cultura foi fortalecida pelos próprios especialistas.
O governo também participou deste processo, diz o diretor de assistência à saúde do Hospital Estadual, Carlos Alberto Macharelli. “Ele induziu a isso levando o atendimento médico para dentro dos hospitais, onde estão agrupadas as especialidades. Nas décadas de 70 e 80 o incentivo foi maior. Ou a gente muda essa cultura ou fica na mesma situação”, afirma.
Apesar do posicionamento, Macharelli entende o receio dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), que muitas vezes encontram a unidade básica de saúde desaparelhada. “Temos de investir na qualificação”, admite o secretário municipal de Saúde, João Sérgio Carneiro.
Até que os atributos da rede básica melhorem e a cultura da hiperespecialização se dissipe, é provável que os usuários continuem buscando atendimento diretamente em unidades especializadas, como foi o caso do artista plástico Percy Coppieters. Com uma ponte de safena no peito, ele buscou atendimento diretamente no HE.
“Não sabia que era obrigatório passar por consulta no posto de saúde para conseguir um encaminhamento. Liguei cinco vezes para o HE e só fui informado no próprio núcleo”, conta. A confusão dos usuários não é novidade nem para Carneiro nem para a Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
No entanto, a hierarquia é respeitada por cada unidade de saúde, que tem seu perfil e missão específicos, destaca o titular da Direção Regional de Saúde (Dir-10) de Bauru, Affonso Viviani. “A palavra chave é pactuação. Pactuação entre os gestores para que o sistema funcione. O sistema é hierarquizado”, conclui.