Tribuna do Leitor

Meu avô contava histórias


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Fui assistir “Olga” e lembrei-me do meu avô, que contava histórias de quando esteve no presídio Maria Zélia, como preso político, em São Paulo. Foi preso muitas vezes e passava a noite contando dele e de seus amigos. Que felicidade, ele tinha amigos. Contava histórias de Luís Carlos Prestes e eu ficava ali fascinado, ouvindo Antonio Alves Filho, jornalista da “Folha do Povo” e do “Correio da Noroeste”, contar histórias do Partido comunista... quando minha mãe chegava da Escola Progresso, sempre após 23 horas, tirava-me do colo do meu avô para dormir no minha cama - “Que era o meu lugar” -. Tempos felizes. Hoje, sozinho, não conto mais histórias para Talita e Thiago, Eles cresceram e não houve outro jeito...

Fui assistir “Olga” e lembrei-me da minha mãe que contava que um dia Luís Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, passou por aqui, estava doente e precisava de um caldo quente e levaram-no para a casa da minha avó Carminda, e ela, como boa portuguesa, prestativa, deu-lhe o caldo quente para combater o frio e a doença do pulmão.

Fui assistir “Olga” e lembrei-me que meu avô contava que sempre lutou por um mundo mais justo, honesto, ético e dizia que não podia haver tanta desigualdade social... meu avô sabia das coisas! Muito inteligente e político, perspicaz e honesto, daí nunca ter nada na vida a não ser sonhos e convicções. Esse foi o legado do homem da “panela vazia” - os mais antigos vão compreender.

Fui assistir “Olga” e confesso que chorei, já tinha lido o romance de Fernando Morais. Um bom filme nacional e que vale a pena ser assistido e discutido, mesmo que algumas hienas estivessem participado na sessão das 15 horas, de quinta-feira. O zoológico precisa urgentemente sair em busca desses irracionais.

Fui assistir “Olga”, sozinho e triste, mas saí pensando que entre Camila Morgado e Arietha Correa, o meu nacionalismo penderia para Arietha, que hoje é uma das atrizes mais completas do Brasil. Coisas de diretor, que o Jayme Monjardim me perdoe.

Paulo Neves - professor desempregado e diretor de teatro

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