Houve quem fosse ingênuo o suficiente a ponto de supor que os atentados a Nova York e Washington em 2001 foram um golpe cujo alvo era apenas o chamado imperialismo capitalista norte-americano. Houve quem sentisse uma inconfessa satisfação ao ver a única hiperpotência econômica e militar do mundo ser golpeada em seus centros político e financeiro, supondo que se tratava de uma revolta contra essa “globalização excludente” que estaria sendo imposta ao mundo pelos EUA. Deve ser difícil para tais pessoas explicarem agora qual a culpa pelos males do mundo que pesava sobre as infelizes crianças russas que foram humilhadas, torturadas e fuziladas pelas costas quando tentavam fugir do horror imposto à sua escola pelo mesmo tipo de fanatismo islâmico que atacou os EUA em setembro de 2001.
Afinal, o que de comum poderia existir entre executivos do World Trade Center, jovens turistas australianos em Bali, trabalhadores espanhóis que pegavam o trem rumo ao serviço em Madri e pobres crianças ortodoxas de uma escola na esquecida Ossétia do Norte? Talvez fique mais claro agora para os menos avisados que não há uma guerra de fundamentalistas contra o “grande satã” norte-americano ou contra seus aliados militares. O que os fundamentalistas islâmicos combatem é toda a civilização ocidental judaico-cristã. E por isso vale a pena para eles matar inocentes em Nova York, na Indonésia, na Espanha, na Rússia, em Israel...
E há mais notícias ruins. Ainda que seja mais cômodo supor que o ódio ao ocidente é particularidade de uma ínfima minoria de muçulmanos radicais, é bom ficar logo sabendo que não é bem assim.
A maioria dos muçulmanos moderados está tão preocupada com os ocidentais trucidados por terroristas como muitos dos civis alemães estavam com os judeus que pereciam nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, muitos estão intimamente felizes e não estariam dispostos a mover sequer um dedo em protesto contra tais hecatombes.
De onde você acha que vem o patrocínio para toda a infra-estrutura logística e de treinamento que financia o show de horrores cada vez mais freqüente em lugares tão distantes como a região do Cáucaso e as ilhas da Indonésia? Seria de empobrecidos cidadãos afegãos ou iraquianos? Ou podemos desconfiar que vem de fontes mais abastadas e do próprio poder em nações muçulmanas? Mesmo em um país cristão como o Brasil, há quem defenda o inaceitável absurdo da ação de homens-bomba palestinos contra a população civil de Israel.
Sustentam que seria esta a única forma de protesto destes contra a ocupação de seu território. Parecem esquecer que promover atentados como os praticados em Israel, e agora no resto do mundo, exige planejamento, audácia e, é claro, dinheiro para comprar armamentos (disso desconhecem alguns dos nossos intelectuais defensores do terrorismo palestino) e dar apoio financeiro às famílias dos “mártires da fé”. Com o fim da Guerra Fria, o mundo assistiu à aceleração incontida da globalização financeira, comercial e das telecomunicações.
No início do século 21, radicais islâmicos tiram proveito desta mesma globalização para disseminar o medo, o ódio e a violência sem limites. Se providências efetivas não forem tomadas logo pelos governos mundo afora, acabaremos sendo obrigados a também achar que o Ocidente e o Islã não podem conviver no mesmo planeta e que um dos dois terá que sumir do mapa a peso de bombas e balas. É irônico observar que avanços tecnológicos da globalização como a Internet e a televisão a cabo estejam servindo para nos mostrar, a cada dia, em tempo real e com tecnologia de ponta, nossa inexorável volta à Idade Média da intolerância religiosa.
Angelo de Assis Fernandes dos Santos - funcionário público - formado em letras e inglês pela Universidade de Brasília - aluno de economia da Universidade Estadual Paulista