Política

Católico decide ocupar espaço político

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Não faz muito tempo, discutir política dentro de uma igreja católica era proibido. E ponto final. O assunto era restrito aos leigos, os chamados fiéis. Os padres, com raras exceções, acompanhavam a movimentação dos bastidores à distância. Os tempos mudaram. A Igreja evoluiu. Surge a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), que decide se posicionar sobre questões econômicas e políticas na busca daquilo que os católicos mais pregam: a justiça social.

O Papa João Paulo II publica, em 1988, a Exortação Apostólica Christifidelis Laici, e convoca os fiéis católicos a se inserirem no mundo político. “Para animar de forma cristã a ordem temporal, no sentido de servir a pessoa e a sociedade, vocês não podem absolutamente abdicar da participação na política”, escreveu o papa mais popular da história da Igreja.

João Paulo II não se contenta com as poucas linhas acima e segue: “As acusações de arrivismos, idolatria do poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam nem o ceticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública.”

A convocação de João Paulo II se tornou um desafio, afinal, aniquilar o conservadorismo de uma instituição que está na história do homem há 20 séculos não é coisa que se faça da noite para o dia. A tarefa inicial para movimentar a engrenagem rumo à participação dos católicos no mundo político coube aos Conselhos Diocesanos de Leigos e Leigas, comandados por fiéis. Mas a contaminação - no bom sentido da palavra - chegou ao clero.

Sem partido

O bispo da Diocese de Bauru, dom Luiz Antonio Guedes, reforça a convocação do papa. “Os católicos devem ter maior participação no mundo político. Não devemos ficar somente dentro da igreja”, afirma. Ele esclarece, porém, que a função política cabe aos leigos e leigas por meio do Conselho Pastoral.

“O conselho tem como proposta que as comunidades reflitam sobre as pessoas que desejam se candidatar”, observa, completando que não cabe ao clero se inscrever em partidos políticos para disputar cargos eletivos. A posição de dom Luiz é levada a sério pelos padres das paróquias católicas instaladas em Bauru.

“A participação dos católicos na política é uma coisa muito boa e necessária. O católico deve concorrer também, como os demais, para os cargos políticos. De vereador até prefeito. O que nos interessa é que os princípios morais, religiosos e de fé da Igreja Católica também possam ser defendidos perante a sociedade”, explica o padre Alberto Oselin, da Paróquia Nossa Senhora das Graças (Casa do Garoto).

Ele é um dos seis padres que assinaram uma carta de apoio à candidatura de um católico à Câmara Municipal, Francisco Carlos de Góes (o Carlão do Gás), confirmando a inserção do clero na orientação e discussão com os fiéis sobre a participação na política.

Essa situação - pioneira no mundo católico de Bauru - deixa satisfeito o comando do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas, fomentador e incentivador da participação democrática dos fiéis na discussão do processo eleitoral municipal, extensivo também às esferas estadual e federal. “O que nós, do conselho e da comunidade, queremos é inverter o processo que hoje vivemos. Como é hoje: o cidadão se candidata e procura a comunidade. O que propomos: a comunidade discute nomes e escolhe um”, explica Cláudio Zanata, integrante do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas.

Ele acrescenta que a intenção é eleger um católico que terá um mandato comunitário. “A comunidade assume compromisso com ele e ele também assume compromisso com a comunidade. Se eleito, ele será cobrado e terá que prestar contas”, avisa.

Para Zanata, a comunidade católica tem o direito de escolher e trabalhar por um candidato. “Mas quero deixar bem claro que não estamos trabalhando contra outros candidatos”, garante.

O integrante do conselho diz que Bauru está dividida em cinco regiões pastorais, das quais três se movimentaram com intensidade no atual processo eleitoral para agendar debates e discutir com os candidatos que se declaram católicos. Embora reconheça que o ideal seria que cada comunidade escolhesse apenas um candidato, Zanata sabe que isso é difícil de contornar.

A região pastoral que mais tem candidatos é a que engloba as igrejas de Santo Antonio (Jardim Bela Vista) e São Benedito (Vila Falcão). No total, 11 católicos disputam os votos dos fiéis. Na seqüência, a região pastoral que tem como igrejas mais conhecidas a Santa Rita, São Judas e Divino Espírito Santo.

Sete candidatos se apresentam para a disputa. A Paróquia Nossa Senhora das Graças foi a única que antecipou o processo há mais de um ano e decidiu escolher apenas um candidato.

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